Publicado em
5/4/2010
Mais:
Legítima defesa - Parte 8
©2008 Ernesto Dias Jr.
Capítulo 1 - Prolegômenos
Capítulo 2 - Tocaia
Capítulo 3 - Papel Kraft
Capítulo 4 - Femme fatale
Capítulo 5 - Vendetta
Capítulo 6 - A verdade tem pernas longas
Capítulo 7 - Água e pedra
Similitude
Tibúrcio Guararema deixara o próprio carro em casa desta vez. Em vez disso emprestara o velho Opala do amigo Kalil. Vidros escurecidos, inclusive o da frente, contrariava a lei do trânsito mas prestava-se perfeitamente à missão. Podia vigiar a presa sem ser visto. A desvantagem tinha sido a condição imposta por Kalil: o dono do carro deveria ir junto.-- Você precisa de proteção – dissera Kalil mostrando a coronha de madrepérola do trêsoitão por baixo da camisa. Vai que o pai da menina aparece...
Guará soltou um grunhido mas não reclamou. Precisava do carro.
A Canon no banco entre eles também era do Kalil. Não houvera tempo para comprar uma nova depois do “atentado” contra o espião.
O sobrado era antigo, isolado de ambos os lados e com uma grande varanda na frente, bem do tipo que se construía no Marapé antes que aqueles monstrengos de quatro andares sem elevador e fachada de pastilhas dominassem a arquitetura local. Ficava do outro lado da rua a não mais que trinta metros.
Não anoitecera ainda de todo quando Guará cutucou Kalil.
-- Você viu?
Claro que Kalil não vira nada. Estava cochilando.
-- O quê? Onde?
-- No corredor. Do lado da casa. Espera.
Pela segunda vez o vulto assomou na quina da casa mas, em vez de voltar à sombra do corredor, atravessou o jardim com passos seguros e venceu com cuidado os degraus da varanda.
Guará passou a Canon para o amigo, o zoom todo puxado.
-- Veja se conhece...
O intruso enfiou devagar uma chave na porta de entrada e, tão rápido como surgira desapareceu na penumbra fechando a porta vagarosamente atrás de si.
Entreolharam-se.
Kalil abriu o porta luvas e retirou a arma. Encaixou-a com habilidade no vão entre o banco e a porta.
Uma hora depois ainda estavam em silêncio, esperando.
-oOo-
Bertran chegou suado e esbaforido. Foi direto para o banheiro recompor-se (ele mantinha até uma camisa limpa no armário para emergências como esta). Sabia que estava testando a paciência do chefe, mas não havia nada que pudesse fazer. Asseio era asseio.
Cinco minutos depois pousou a pasta na mesa de Polansky e a abriu.
-- Uma caçada e tanto, chefe. Mas valeu a pena.
Polansky endireitou-se na cadeira.
-- Esta é a página, e aqui está a nota. Coluna social como você disse.
“Nova fraternidade vai promover ações sociais na cidade”.
O título não dizia grande coisa.
“Nosso fotógrafo flagrou ontem, no Almeida, um grupo de eminentes líderes sindicais de nossa cidade reunindo-se para discutir a fundação de uma nova sociedade beneficente, para atender famílias desamparadas na área do cais do porto. Da esquerda para a direita...”
-- Os tipos não tem cara de quem está para fazer benefício algum. Mais parece um encontro da máfia – sentenciou Bertran.
Polansky retirou da gaveta a lista que Amelie lhe dera.
-- Bingo. Olha aqui. São os mesmos.
-- A menos...
-- Sim a menos do último da direita.
Polansky olhou mais de perto.
-- Não admira que este aqui me pareça vagamente familiar. Veja o nome.
-- Antonio Vero.
-- Vero, verdadeiro, Adevarat.
Polansky apoiou o queixo nas mãos e os cotovelos na mesa. Fechou os olhos. Bertran sabia que era melhor ficar quieto enquanto o chefe pensava.
-- Bertran – disse finalmente – tem gato nesta tuba. Sociedade beneficiente uma ova.
Bertran sorriu.
-- Minha impressão exatamente, chefe. E tem mais.
-- Mais?
-- É – afirmou retirando outra cópia de página de jornal da pasta. – Isto aqui saiu no dia seguinte, na seção policial.
“Subversivo preso”. Esse era um título interessante.
“Foi capturado ontem pela polícia o procurado agitador Piero Scaccabarozzi. Ele estava desaparecido desde o começo de abril quando uma passeata dos estivadores na Praça Mauá foi dispersa pela polícia do exército. Na época o homem foi apontado pelos trabalhadores como líder do movimento e autor do panfleto no qual atacava o novo governo.
Fontes declararam a este jornal que a prisão foi possível graças a um telefonema anônimo. Dada a natureza da acusação, o Sr. Scaccabarozzi ficará detido a bordo do Raul Soares aguardando a conclusão de inquérito policial-militar.”
A foto que ilustrava a notícia mostrava o prisioneiro algemado e ladeado por dois soldados com o famoso capacete da PE.
-- Hoje é o dia das faces familiares! Exclamou Polansky.
-- Cara de um, focinho de outro. Possivelmente pai e filho – acrescentou Bertran.
-- E o que aconteceu depois com o camarada?
-- É aqui que a coisa pega, chefe. O que você sabe do Raul Soares?
-- Foi um navio transformado em prisão pelos militares em 64. Ficou um bom tempo fundeado no canal do porto. Contam-se muitas histórias sobre o que se passou lá dentro.
-- Pois é – continuou Bertran – eu consegui achar na internet a lista de todos os presos do Raul Soares à época. Não tem nenhum Piero Scaccabazozzi.
-- Vai ver estava com outro nome. Ou então seu nome foi omitido.
-- Dificilmente. Não havia razão para trocar o nome, e os militares, como em todo lugar do mundo, adoram anotar minuciosamente tudo o que fazem. Não. Para mim...
---... esse cara nunca chegou lá – concordou o detetive.
Foto: Pair of nude legs, por Declan McCullagh (http://www.mccullagh.org/)
Ana Lúcia Porto
em 6/4/2010
Flavio Ferrari
em 25/4/2010
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