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Publicado em
8/3/2007

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Pecado e capital
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Pecado e Capital

©2008 Ernesto Dias Jr.


Links para os capítulos anteriores:
Parte 5 - Conspiração
Parte 6 - Estrela da Manhã
Parte 7 - Revelação
Parte 8 - Nas asas de Azazel


Parte 9 - Um anjo se prepara


O Céu não tem cadeia. Não precisa. Basta puxar a ficha do pecador e rebaixar sua nota. Zapt! A alma ressurge na portaria do Purgatório para uma temporada corretiva. Casos mais graves idem, só que no Inferno. E há ainda aqueles sem solução, transgressores de difícil recuperação. Esses, mediante visto lá do Homem, são mandados para a reencarnação. O espírito ganha nove meses para pensar e depois uma vida inteira para espernear.

Raríssimas vezes esse processo era alterado. O caso de Lisa (ou seja lá o nome que tivesse) era um desses. A moça fora colocada no limbo por tempo indeterminado. Gabriel poderia precisar dela(e). Embora sua falta fosse capitulada como merecedora do Inferno, o Homem nunca tinha conseguido assinar um tratado de extradição com o Fedorento. O Inferno, pois, colocaria aquele ente bissexuado fora do alcance das leis divinas.

Leonardo, é claro, estava desolado. Não tanto pela perda da companhia de Lisa, mas principalmente por não ter percebido a jararaca que pintara, abrigara e de cujos favores desfrutara por tanto tempo.

Lisa confessara tudo. Como fora abordada pelos caídos, como extraíra as informações do plano de Leonardo e Gabriel tinham para Jailton. Isso quando ela própria não presenciava os diálogos entre os dois.

O Anjo da Guarda de Jailton já se fora, a caminho de merecidas férias depois do susto. O humano estava fora do alcance de qualquer proteção, arrastado que fora ao terreno adversário.

Uma anja algo vetusta mas que ainda deixava adivinhar sua beleza quando sobre a Terra entrou no gabinete de mansinho.

— Chefe, O Dr. Leonardo está aí em baixo. Disse que não quer subir. Pediu que o encontre no jardim.

Gabriel sorriu. Não era proibido fumar nos Jardins do Éden. Desceu. Leonardo estava de pé, à beira do lago. O arcanjo consultou suas penas para saber de que lado soprava o ar, e postou-se à barlavento.

— Sinto muito, meu amigo, mas não havia outro jeito.

— Hum — grunhiu o velho sábio — eu sei. O que era aquela sacanagem toda que seu agente descreveu?

— Você ouviu?

— Estava na ante-sala antes de vir para cá esperar por você. E com esse silêncio celestial...

— É o estilo de Azazel. Muita mulher pelada, gatinhos safados, mocinhas importadas de Lesbos... — parou ao ver a expressão lúgubre de Leonardo.

— A mim parece bom...

— Seria, se fosse real. Mas é só um teatrinho para humanos impressionáveis. Na verdade, ele apenas materializou os desejos secretos do próprio Jailton de forma, digamos, contundente. É um truque barato.

Gabriel fez um gesto com as asas e o lago agitou-se de repente. Uma forma feminina emergiu das águas, corpo arqueado, os olhos fechados visíveis por trás da cascata que escorria de seus cabelos longos e cacheados. Suas formas generosas, de medieval beleza, exudavam uma sensualidade intrigante, primeva.

Outro ser levantou-se do lago ao seu lado. Espécie de robot antigo, antropomórfico e claramente feminino.

Gabriel observa Leonardo ao seu lado. O amigo, em transe, gesticulava como orquestrando o balet prestes a iniciar-se.

A mulher contorceu-se mais e mais, buscando com as pernas a... máquina? Cujas juntas delicadamente esculpidas articulavam membros humanamente alvos, asas de seda suportadas por longas varetas como juncos enlaçavam as pernas da ninfa que ciciava, antecipando um prazer obsceno. De repente, entre o que seriam as coxas da criatura surgiu um enorme falo de alabastro, pulsado por engrenagens de cristal, polias de marfim, correntes cuidadosamente lavradas em ouro. A mulher retesou um pouco mais o corpo e sua cabeça mergulhou na água. A transparência do lago deixava ver seus olhos arregalados e as ondas amplificavam seu gemido.

Gabriel fechou as asas e tudo desapareceu.

— Leonardo, Leonardo...

— O que foi aquilo? Porquê sumiu de repente? — o velho conseguiu dizer ofegante.

— Aquilo, meu amigo, é a sua própria versão para uma sacanagem bem feita. Saiu da sua cabeça. Como eu disse, um velho truque — Gabriel sorriu um pouco cruelmente — Agora eu sei e que excita um famoso inventor. Você não deixa de criar máquinas mesmo em suas fantasias, não é?

Em vez de mostrar-se constrangido, Leonardo soltou uma gargalhada.

— Acho que encontrei um novo projeto. Se eu duplicar os excêntricos que movimentam o pênis e substituí-lo por dois lábios...

— Leonardo!

— Está bem, está bem. Posso desenhar isso depois. Você já provou seu ponto de vista. E agora? O que vão fazer com o Jailton?

— Nada de mau. Por enquanto. Se Azazel seguir o script, e eu acho que vai, deve estar levando o Jailton para o velho tour pela história-do-início-dos-tempos, versão realidade virtual.

— História? Que história?

— Veja... existem várias versões para o início dos tempos. Cada um tem a sua. E cada qual, é claro, puxando a sardinha para o seu lado. Aqui mesmo, no Paraíso, temos uma produção bastante boa da mesma lenda. Nada de 3D nem technicolor, infelizmente. Nosso departamento de marketing anda meio sem dinheiro desde que usou a verba para reescrever o Gênesis, um tempinho atrás.

— Mas, sendo a versão do Céu, é a verdadeira — afirmou Leonardo com confiança.

— Hummmm. Bem, é razoavelmente exata sim. Mas não se esqueça que foram escritas para um público-alvo muito diferente de nós, você sabe. E depois, o que é a verdade? Aqui no Céu nós não mentimos, nem relativizamos a verdade. A verdade aqui é absoluta mesmo. Então o que nos resta é mudar os fatos para que se encaixem na verdade. Simples assim.

— Mas é uma forma de trapaça, do mesmo jeito!

— Não Leonardo. Não é. Você está pensando como humano agora. A Histórias é feita de fatos alinhados no tempo, cronologicamente arranjados sobre um falso relógio. Mas fora daqui o Absoluto não existe. Os eventos multiplicam-se ao infinito, cada instância com seus próprios desdobramentos. Tome uma delas e mostre a quem quiser. Você estará mostrando uma das realidades, mas ainda assim realidade e portanto verdadeira. Parece complicado?

— Um pouco só. Nunca pensei muito a respeito.

Gabriel passou o braço sobre os ombros do amigo.

— Converse com Albert sobre isso. Ele entende bem dessas coisas não absolutas do mundo.

— E o que isso tem a ver com Azazel e com Jailton?

— Azazel conhece as dobras do espaço e do tempo tanto quanto eu. E pode mover-se entre elas. E pode levar Jailton com ele.

— Sei. Mas isso não resolve o problema. Nosso projeto... seu projeto meteu o homem nessa confusão. Agora você tem que tira-lo disso. Vai fazer o quê? Mostrar a Jailton sua própria versão da história? Outra... hamm... instância?

O semblante de Gabriel sombreou-se e endureceu ao mesmo tempo. O anjo suspirou.

— Não. Vai ser um pouco mais difícil que isso.

Gabriel pensou na espada, a sua espada flamejante, pendurada na sala de jantar.

Teria que empunhá-la uma vez mais.



Imagem: Jean of Arcs Kisses the Sword of Liberation, de Dante Gabriel Rosseti
http://www.goodart.org/artofdr.htm

Amanda Arthur
em 8/3/2007

Quem diria? Os anjos são os maiores marketeiros... E eu por anos com dúvidas existenciais profundas sobre a importância da profissão para a humanidade.
PS: Estou rindo (não sei se era para tanto) dos 9 meses pra pensar antes de reencarnar... Cada uma!



udi
em 8/3/2007

Decerto reencarnação é a pena máxima.
Olha, pode ficar parecendo tietagem demais, mas tá muito lindo mesmo! De novo, milhares de insights que resultariam mais de mil palavras...



Anne M. Moor
em 8/3/2007

E eu de 2 coisas:
"Agora eu sei o que excita um famoso inventor. Você não deixa de criar máquinas mesmo em suas fantasias, não é?" Qquer impressão de semelhança será que é mera coincidência? :P e:
"(...)E depois, o que é a verdade? Aqui no Céu nós não mentimos, nem relativizamos a verdade. A verdade aqui é absoluta mesmo. Então o que nos resta é mudar os fatos para que se encaixem na verdade. Simples assim.(...)" I'm chuckling (como diabos se diz isso em português?) e pensando de todas as possibilidades que isso dá!!!



Anne M. Moor
em 8/3/2007

Oooops! A postagem da Udi apareceu entre o da Amanda e o meu :-)... E eu rindo de 2 coisas...



Ti Bell
em 8/3/2007

Sempre acreditei que a verdade é relativa....



Udi
em 8/3/2007

...mas Ti, você há de concordar que ela sendo absoluta seria mesmo "simples assim".



Udi
em 8/3/2007

alguém sabe dizer porque, às vezes meu nome vem com link e outras não?
já não estou mais com idade prá ter problemas de indentidade...



Udi
em 8/3/2007

...e minhas visitas estão mais frequentes.



Amanda Arthur
em 8/3/2007

Udi,
Acho que seu nome já está registrado nas estrelas da blogosfera, só esperando você se decidir pelo nome do blog que irá criar.
Banda bala garota!
Beijo!



Anônimo
em 8/3/2007

Ernesto:
Tô segurando o queixo...Brilhante, genial...
Lú.



Ernesto Dias Jr.
em 9/3/2007

Eu ia deixar o making-off para o fim, mas já que o Flavio puxou o assunto, dá para publicar um pouco dos bastidores de Pecado e capital.
De fato, a graça está em que a estória era outra. Completamente outra. E nem mesmo seria escrita como foi. Como disse no comecinho, era uma comédia jocosa e light para preencher o espaço aqui, enquanto o Flávio desenrolava as deliciosas crônicas do Jailton no Arguta. Uma pista do tom inicialmente projetado para a estória pode ser vista no meu comentário lá no blog do Ortega, o Ecoar, que foi minha primeira inspiração para a coisa toda (O link para essa postagem está no primeiro capítulo)
O tal projeto surpresa começaria mais tarde.
Quando o Flavio não só chamou a seqâ¼ência para si como também — numa sacada genial — fez um merge com a estória do Jailton & Cia, eu fui na verdade pego no contra-pé.
Tanto é assim que o título acabou por ficar impróprio — ou não, dependendo do que nos reserva meu parceiro. Mas isso não é importante. O importante é que foi o Flávio quem adensou a trama, logo em sua primeira intervenção.
Não foi fácil fazer com que o Céu reequilibrasse a iniciativa no enredo. Foi necessário, entre outras coisas, aprofundar um pouco o psiquismo de Gabriel que, graças ao Homem, já adquiriu vida própria, o que facilita a vida de qualquer contador de estórias. Sem falar em Maria Celeste, também de exógena inspiração, esteio e côr na vida do anjo naquele Céu burocrático.
Finalmente - por enquanto - vale parodiar Truffault naquela fala que já é lugar comum: espero que vocês estejam se divertindo tanto com as peripécias de Gabriel e Jaílton quanto delicioso está sendo para Flavio e eu escrevê-las.



Flavio Ferrari
em 9/3/2007

O que são os fatos diante da força dos argumentos num céu ernestiano ?
Impressionante a habilidade do Ernesto em construir seus personagens de forma tão consistente. Essa sacada projetiva do Leonardo foi antológica.
Para responder a altura vou precisar de mais um dia para escrever o antepenúltimo capítulo da saga.
Sigo espantado que estejamos conseguindo fazer isso de forma tão coordenada sem combinar nada.
Devem ser os eflúvios das fadas e musas (é uma delícia escrever para uma platéia tão querida), e o estímulo mais recatado dos marmanjos pelos corredores, pedindo o telefone de Carol e Eduarda e perguntando se tem jogo com a mulher do Gabriel.
Quando decidimos começar, o Ernesto (descobri depois) já tinha uma idéia na cabeça. Eu, logo depois da Parte 1, imaginei o final.
Entre essas duas partes, a história seguiu seu curso, autonoma, mas sem fugir do começo e do final inexorável. É a sina dos personagens ... Estava escrito, não no blog, não por mim ou pelo Ernesto.
Mas pelos princípios da sincronicidade do universo.



Flavio Ferrari
em 9/3/2007

Acho que a gente deveria fazer um making off depois do final da história ...
Mas num bar, com todos frequentadores dos blogues presentes, para que cada um fale de suas experiência no processo.
Será que o Google patrocina ?




 




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