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Bloguei, bloguei, como é cruel blogar assim

Publicado em
2/3/2010

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Mini-séries

Legítima defesa - Parte 6

©2008 Ernesto Dias Jr.


Capítulo 1 - Prolegômenos
Capítulo 2 - Tocaia
Capítulo 3 - Papel Kraft
Capítulo 4 - Femme fatale
Capítulo 5 - Vendetta

A Verdade tem pernas longas

Kalil chegou no táxi ao mesmo tempo em que a ambulância saía com o frentista.

-- Tem um cigarro? Como está o cara?

-- Não parou de tremer ainda. O pessoal do resgate achou melhor levar para a Santa Casa.

-- Merda de cartuchos de festim. Que idéia de merda.

Tibúrcio Guararema acendeu dois cigarros ao mesmo tempo e deu um ao amigo.

-- Merda? Você queria que fossem balas de verdade?

-- É claro que não. Mas se queriam assustar você não podiam só ligar pro teu celular e dizer que iam estourar os teus cornos, coisa assim?

-- Talvez saibam que já recebi milhares de ligações desse tipo.

Ficaram em silêncio enquanto duraram os cigarros.

-- Vamos sair daqui – disse Guará atirando a bituca na grade do bueiro.

-oOo-

Depois de certificar-se que estava sozinho Polansky abriu o frigobar em busca de gelo. Gelo não havia, mas a garrafa de São Pelegrino fazia as vezes. Ainda mais que descobrira que a dor recolhia-se melhor quando gelava a nuca em vez do galo no alto da cabeça.

“Se quisesse me matar já teria matado” – pensou ele. “E se voltar estarei preparado”.

Do sofá via o tampo da mesa. Exatamente como se lembrava dele. Ou quase. O recorte de jornal sumira.

Sumira da mesa, mas não desaparecera. Polansky fechou os olhos. A imagem do recorte latejava junto com a cabeça. Ia e vinha. Aos poucos a garrafa gelada fazia efeito e a fotografia parava de pulsar. Entrava em foco.

Dez homens. A tinta vermelha não deixava identificar nove deles. O décimo, estava certo, não conhecia. Mas havia algo familiar. Muito familiar na imagem. Se não eram os rostos...

Gostaria de dar uma olhada melhor no escritório, mas sabia o que era melhor para a sua saúde. Melhor sair dali enquanto podia. E depois, descobrira que estava morrendo de fome.

Na calçada procurava no bolso a chave do carro e na cabeça um lugar para jantar sossegado enquanto empurrava para o arquivo da memória a fotografia.

Parou de repente.

-- O Almeida! É o Almeida porra!

Correu para o carro.

-oOo-

A Ana Costa àquela hora não era mais que uma avenida deserta. Vinte anos atrás Guará aceleraria feito louco e tinha vontade de fazer o mesmo agora. E faria, não fossem aqueles malditos radares.

-- Que coisa foi aquela de eu me afastar do caso?

Kalil respirou fundo antes de responder.

-- Sabe o nome da menina?

-- Amelie. Você escreveu na foto.

-- Amelie Adevarat, completou Kalil.

Guará fechou a cara.

-- O Romeno?

-- É filha dele.

-- Fodeu.

-- Fodeu.

Guará silenciou por quatro quarteirões.

-- Ele ainda é vivo?

Novo suspiro de Kalil.

-- Não sei. Ninguém sabe. O que sei, e o que todo mundo sabe, é que ele jurou matar quem mexesse de novo com a filha dele.

-- Então Amelie é aquela menina...

-- É. Dizem que não é mesmo filha, que ele adotou quando ainda mandava nas docas, ele e sua tropa, antes do governo acabar com a festa por lá. Mas é uma história nebulosa, ninguém fala muito no assunto.

-- Kalil, o Romeno é passado. Ninguém nem sabe dele. É só uma lenda agora.

-- É Guará. Uma lenda que manda recado. Próxima vez vai ter chumbo naquelas cápsulas.

Mais quatro quarteirões de silêncio e Tibúrcio Guararema encostou o carro. Chegaram. Ana Costa número Um, quase no centro.

-- Por hora tudo o que precisamos é de uma sopa de cebolas do Almeida. Único lugar aberto a essa hora, graças a Deus. Eu pago.

-oOo-

Polansky foi recebido pelo mesmo velho garçom. Que já estava lá antes mesmo dele nascer.

-- Boa noite, doutor Polansky.

-- Boa noite Armindo.

-- Mesmo lugar?

-- E o mesmo pedido de sempre. Mas antes preciso te perguntar uma coisa...

-- Claro doutor Polansky.

-- Vem até aqui...

Polansky levou Armindo pelo braço até a quina do balcão.

-- Aqui mesmo. Aqui...

Apontou para a parede no fundo do restaurante.

-- Tá vendo lá onde agora está a prateleira com os vinhos?

-- Sim, o que é que tem?

-- Antes era onde ficava a grelha. Foi tirada para dar mais espaço para as mesas, não foi?

-- É, foi...

-- E lembra que o Seu Almeida cobriu aquele canto para não atrapalhar os fregueses enquanto reformava e a prateleira era feita?

Armindo começou a rir.

-- Claro que lembro. Botou uma enorme bandeira da Portuguesa Santista que ele mesmo mandou costurar. O pessoal do Santos brincava dizendo que nunca mais viria jantar depois das reuniões da diretoria!

Polansky riu junto e fez a pergunta.

-- E você lembra quando foi isso?

-- Claro que lembro, doutor Polansky. Foi em...

-oOo-

-- Bertran, te manda para a Tribuna assim que abrir. Vasculha os arquivos entre...

Deu as datas e descreveu a foto que estava procurando.

-- Não dava pra esperar até de manhã para me pedir isso?

Só então Polansky se deu conta que, ao contrário do chefe, Bertran era um homem de hábitos arraigados. Dormia cedo e sempre à mesma hora.

-- Desculpe. Mas tive uma noite agitada e perdi noção da hora. Amanhã te conto.

Aproveitou para saber como andava a pesquisa.

-- Descobriu se tem alguma coisa de verdade naquele relatório do envelope?

Pôde ouvir o risinho maroto de Bertran do outro lado da linha.

-- Chefe, ainda estou verificando umas coisas, mas vindo de quem veio tudo o que está lá deveria se confirmar, tintim por tintim.

-- Não entendi...

-- Amelie Adevarat deve, ou pelo menos deveria, jamais dizer uma mentira.

-- Bertran...

-- Adevarat, chefe. Adevarat é romeno e quer dizer "verdade".

E desligou.

(As pernas da foto são de Jennifer Aniston)


Anne
em 2/3/2010

Well, é tãaaaaaaaaaao bom saber que o autor está vivo!!!! E que o blog ainda existe... :D

Adoro um mistério...

Beijão
Anne



António Tapadinhas
em 5/3/2010

Esta história das mini-séries é muito complicada e, por maioria de razão, piora com as policiais: de cada vez que leio um capítulo, tenho de voltar a ler os anteriores...

...no final, já as sei de cor.

Se fossem peças de teatro, acho que podia fazer todos os personagens...

Mesmo descontando os pêlos, não tenho é assim as pernas longas...

Abraço,
António



Flavio Ferrari
em 5/3/2010

Complicou ... mas ficou divertido ... La vou eu Até domingo



Ava
em 5/3/2010

Boa noite, moço!

Que bom que voltou!

A tua volta já é uma legítima defesa da amizade...rs

Se conseguir unir a realidade e o sonho, és um homem deveras feliz!

Sobre a minisérie, sem opinir, porque ainda não lí. Mas percebo que a dobradinha Ernesto/Flávio é perfeita!

Beijos meus!





Ava
em 5/3/2010

Boa noite, moço!

Que bom que voltou!

A tua volta já é uma legítima defesa da amizade...rs

Se conseguir unir a realidade e o sonho, és um homem deveras feliz!

Sobre a minisérie, sem opinir, porque ainda não lí. Mas percebo que a dobradinha Ernesto/Flávio é perfeita!

Beijos meus!





Jorge Lemos
em 6/3/2010

<BR />
Digo:
estou enxergando coisas diferentes depois da primeira cirurgia. Consegui
retirar a catarata de Iguazu. Bom rever você em atividade. Temos que discutir, juntamente com o Flávio, a possibilidade de formar-mos um "Múltiplo de Três" em contos breves. Aguardo você e o Walmir.
Do Velho Lemos



Jorge Lemos
em 6/3/2010

<BR />
Digo:
estou enxergando coisas diferentes depois da primeira cirurgia. Consegui
retirar a catarata de Iguazu. Bom rever você em atividade. Temos que discutir, juntamente com o Flávio, a possibilidade de formar-mos um "Múltiplo de Três" em contos breves. Aguardo você e o Walmir.
Do Velho Lemos



Jorge Lemos
em 6/3/2010

<BR />
Digo:
estou enxergando coisas diferentes depois da primeira cirurgia. Consegui
retirar a catarata de Iguazu. Bom rever você em atividade. Temos que discutir, juntamente com o Flávio, a possibilidade de formar-mos um "Múltiplo de Três" em contos breves. Aguardo você e o Walmir.
Do Velho Lemos




 




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