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Estou blogando pra casa outra vez

Publicado em
2/3/2007

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Pecado e capital

©2008 Ernesto Dias Jr.


Links para os capítulos anteriores:
Parte 1 - O Céu
Parte 2 - A Terra
Parte 3 - O sexo dos anjos
Parte 4 - Beata Constância
Parte 5 - Conspiração
Parte 6 - Estrela da manhã

Parte 7 - Revelação

Gabriel detestava o latim. Latim lembrava-lhe um grande estouro no orçamento. Houve um tempo em que alguns Crentes faziam seus rituais e rezas em latim. Ninguém no Céu entendia muito bem porque. Afinal, com poucas exceções, santo nenhum entendia o idioma. O resultado era que ele, Gabriel, tinha que manter um batalhão de tradutores trabalhando dia e noite para tornar inteligíveis as cerimônias, novenas, súplicas e outras demandas mortais, antes de repassá-las aos seus destinatários.

O problema estava afetando tanto as finanças do departamento que o Homem mandara Gabriel acabar com aquilo. Deu um pouco de trabalho, mas uns poucos agentes bem postados conseguiram convencer alguns figurões de que latim era mesmo uma língua morta.

Agora o latim vinha novamente assombrar seus afazeres.

Quando finalmente o departamento de comunicações conseguiu contato com o desaparecido Anjo da Guarda do Jailton, o agente conseguiu transmitir alguns sons entreouvidos do seu cativeiro. Também, pudera. Alguém por lá gostava de fazer declarações tonitruantes, para não dizer bombásticas.

O anjo releu o final da transcrição, naquele estilo burodramático do Anjo da Guarda Chefe:
...
Ruído de fundo: sinapses desconexas;
Ruído de fundo: pratos sendo quebrados e arcos voltaicos (provavelmente universo em formação)
Vozes ao fundo: briga e xingamentos em aramaico;
Ruido de fundo: gato miando
Voz masculina (forte) em latim: “deus desconhecido, por tuas palavras serás julgado...”;
Voz masculina (muito forte) em latim: “conta a tua história!”
(Fim da transmissão)

O paradeiro do agente ainda não tinha sido determinado. O Chefe continuava rastreando, mas o sinal era muito débil, o que significava que o halo impeditivo continuava ativo. De qualquer modo, Gabriel concordara com a interpretação do Chefe: algum tipo de interrogatório estava em curso. O problema era que a voz da vítima devia ser muito fraca para que o agente no local pudesse captar.

Gabriel largou tudo, desceu a escadaria e saiu para o jardim. Precisava pensar. Sua única chance era encontrar o traidor, o informante que permitira que o adversário emboscasse Jailton na hora certa.

Blasfêmias em aramaico, latim desperdiçado... típico dos caídos. Talvez Leonardo estivesse certo afinal.

A lembrança do amigo trouxe consigo a imagem de Mãos-de-Delícia. A moça fora tema da rotineira conversa ao pé do fogão com Maria Celeste na noite anterior. A anja, estranhamente, insistira em repassar o que era sabido da misteriosa companheira do velho sábio. Ela sabia mais do que constava nos arquivos do departamento. Fofocas na maior parte. Dizia-se que seu nome era Lisa, mas alguns querubins bem informados juravam que ela também atendia por Caterina. E havia quem murmurasse à boca pequena que a rapariga preferia ser chamada de Francesco, o que depunha contra a reputação do inventor. Não obstante, essa era a versão predileta de Maria Celeste. Ela chegara a rir de Gabriel, quando confessara sua atração pelas mãos da moça:

— Mas aquilo nem mulher é! — exclamou, a boca curvando-se na expressão zombeteira tão familiar ao marido.

Depois, pensativa, Maria Celeste completou, séria:

— Pensando bem, aquela criatura tem mesmo um ar andrógino. Dá o que pensar.

As palavras da esposa ficaram bailando na mente do anjo. Andrógino. Sem sexo definido. O limbo do gênero. Caído.

As asas de Gabriel já batiam antes mesmo que a resposta se formasse completamente em sua mente. Entrou no gabinete voando pela janela, berrando com sua voz angelical:

Chefeeeee!!!!!!!


udi
em 2/3/2007

a transcrição, com os inevitáveis ruídos de fundo, é hilária! ...mas, "burodramático" e "arcos voltaicos"?! tão difícil quanto latim! ...ou grego, ou japonês.



Anônimo
em 2/3/2007

Ernesto;
Esse "fervor" criativo é sempre surpreendente...Aquele sorriso ,afinal,devia mesmo ter grandes motivos pra ser tão enigmático...
Adorei...(tudo).
Lú.



Anne
em 2/3/2007

"... berrando com sua voz angelical..." é o estouro da foguetama celebral, o acender da luz... Adorei... Continuemmmmmmm...



Ernesto Dias Jr.
em 3/3/2007

Flavio:

Take your time, my friend.... take your time.
Que se meu visto sair a tempo também estou-me escafedendo para outras plagas por um tempo.



Flavio Ferrari
em 3/3/2007

Hoje não dá para escrever nada a altura ... vou tentar amanhâ, antes da viagem.



Flavio Ferrari
em 3/3/2007

Cada vez mais difícil de acompanhar esse cara ...
Como é que ele descobriu o esconderijo do anjo, debaixo da ponte, entre o pré-molar e o dente do siso ?
Será que ele já conhece Semjaza. Teria ele visitado o site dos anjos caídos (http://paginas.terra.com.br/lazer/staruck/anjoscaidos.htm) ?
Saberia o casto autor quem matou Salomão Ayala e Odete Roitman ?
Conheceria a atual escalação do alvi-negro ?



Anne M. Moor
em 3/3/2007

E vcs vão se escafeder e nos deixar chupando o dedo????????????? Na ne ni no nu... COmo vamos sobreviver? :-(
Brincadeiras a parte, boa viagem aos dois e aproveitem a mudança de ares se possível...
Bjs




 




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