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Meu blog errou de veia e se perdeu

Publicado em
25/2/2007

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Pecado e capital

Pecado e capital

©2008 Ernesto Dias Jr.



Prefácio:


Esta estorieta, com número incerto de partes, servirá para encher um pouco de linguiça. enquanto o Flavio resolve a vida do Jailton, lá no Arguta. Essa é condição sine qua non para o início de um projeto conjunto secreto, tramado sotto voce entre uma empada e outra. A inspiração para este conto veio de uma postagem do amigo Reinaldo Ortega, em seu blog Ecoar. Afinal, nada se cria, nada se perde; tudo se transbloga.


Parte 1 - O céu


Gabriel acabara de sair da sala do chefe. Desesperado. O Homem queria mudar o mecanismo do pecado e sua expiação. Nada mais desse negócio de pecar primeiro e pagar depois. A inadimplência andava alta. O sujeito morria sujo na lista negra do SPC (Serviço de Proteção ao Crente) e ia automaticamente para o Inferno, engrossar as hostes do Tinhoso. Na Quaresma então...

Gabriel sempre fora um administrador eficiente, e agora estava pagando o pato por isso. Questiúnculas como o abandono do latim em cerimônias cristãs podiam ser resolvidas por querubins mesmo. Até a adoção do mercúrio cromo em rituais de erradicação de prepúcios havia sido implementada por um subalterno. Mas quando a questão era séria, importante, o Homem mandava soar as trombetas e bradava: Gabrieeeeeeel! E lá vinha encrenca.

A última vez que o Homem lhe encarregara de uma missão de peso fora há muito tempo. Os pecados estavam então em ascensão entre os Cristãos. Não porque estivessem fornicando demais, mas porque estavam catalogando pecados demais. Até o lucro modesto e honesto entrara no Index, o que segundo o Ministério de Assuntos Humanos poderia incentivar o avanço do comunismo no futuro. Gabriel, numa formidável obra de engenharia política e alguma futrica aqui e ali, conseguira (com a mão de gato de um tal de Calvino), criar um ramo capitalista da fé.

Mas os tempos eram outros. Agora o mundo estava complicado demais. Gabriel precisava de ajuda. Desligou o computador com uma penada e resolveu pedir conselhos ao Leonardo. Ele vivia enfiado na Biblioteca Celestial lendo, rabiscando e inventando coisas. Tinha até uma pequena oficina no porão, de onde saia, vez por outra, uma geringonça incompreensível ou um quadro a óleo. Estes últimos muito concorridos nos leilões de primeiro de abril, também conhecido como o Dia do Santo Graal.

O sábio estava lá mesmo, curvado sobre um torno mecânico alemão com controle CNC. Na bancada, um objeto estranho, do tamanho de uma lata de cerveja e cheio de anéis com letrinhas chamou a atenção de Gabriel. O anjo sabia como puxar conversa com o velho.

— O que e isso aqui que você está fazendo?

— Uma coisa que dizem que inventei, mas que não inventei de verdade — respondeu Leonardo com azedume — serve para proteger segredos, se funcionar. Algum maluco até deu um nome ridículo para essa coisa. Cryptex, parece.

— Não testou??

— Não — respondeu o inventor, desligando a máquina e limpando as mãos sujas de óleo no avental — não está pronto. Ainda preciso sair para comprar um pouco de vinagre.

Sentaram-se em uma mesa afastada da biblioteca e Gabriel contou o seu problema. Leonardo não pareceu abalado. Estava até um pouco enfadado.

— Bem se vê que você não anda muito atualizado com as coisas da Terra ultimamente.

O Anjo Chefe corou. Era verdade. Como CEO do Céu não tinha mesmo muito tempo para desviar sua atenção do dia-a-dia do Paraíso. A última coisa que lera fora uma edição de carnaval de O Cruzeiro. E assim mesmo no banheiro.
O inventor continuou:

— O que você está dizendo é que as pessoas vão ter que fazer penitência antes de pecar, não é isso?

— É, mas não é tudo. O castigo também entra na conta. O Seguro Celestial idem. Se o sujeito não tiver suficiente penitência acumulada estará mais exposto a sanções e não contará com os serviços do Anjo da Guarda.

Pela primeira vez Leonardo deu sinal de entender a situação:

— Porra!

— Pois é.

Leonardo acendeu um baseado. Gabriel abriu a janela. O cheiro daquela coisa lhe enjoava as penas.

— Sabe, de certo modo isso aí já existe. Os Crentes usam a mesma coisa para outras coisas, o que facilita o seu trabalho. Pelo menos eles vão saber do que você está falando. Se você assistisse mais televisão em vez de ficar enfiado naquele escritório saberia disso.

A asa esquerda do arcanjo, nervosa, tremelicou. O amigo continuou:

— Pagar primeiro e receber depois é uma modalidade muito difundida de negócios entre eles hoje em dia. Veja os telefones, por exemplo. Tem um monte de gente, principalmente entre os pobres e os devedores (os melhores Crentes), — que paga primeiro e usa depois. Tem também uma coisa chamada consórcio. Posso mandar alguns folhetos para você entender melhor como funciona.

Gabriel começava a relaxar. Acertara em consultar o esperto Leonardo. Talvez não fosse tão difícil, afinal.

— E por onde você começaria, se fosse eu?

— Bem. Considerando sua ignorância dos negócios humanos, é melhor procurar alguém de lá mesmo que saiba bem como fazer essa coisa. E depois, porquê pensar em tudo você mesmo? Tem o marketing, o controle dos créditos, o serviço de atendimento ao pecador, o follow-up, enfim. É muita coisa para uma pessoa só. Só precisa encontrar o humano certo, e ele nem precisa ser Crente. Experiência é que conta.

Gabriel estava excitado:

— Onde começo a procurar?

— Pelo Brasil, claro. Eles evoluíram muito desde que seu Departamento de Catequese e Conversão andou por lá. E se alguma coisa der errado eles nem vão perceber. Você pode matar aquela gente de tanto pagar penitência e não dar nada em troca que eles não reclamam. O governo deles faz isso o tempo todo.

— E você me daria algumas indicações?

— Claro que sim. Conheço gente por lá.

— E como eu vou convencer o cara?
Leonardo chupou as íltimas fibras incineradas de maconha antes de responder.

— Já ouviu falar em Power Point?

Udi
em 26/2/2007

prá encher linguiça? que modéstia!



zuleica
em 26/2/2007

Obrigada por visitar meu blog. Diverti-me com a leitura desse seu texto do Gabriel. Você é escritor. Estou muito longe!Abraço.



Anne
em 26/2/2007

Como sempre... impecável transblogação ... um prêmio após uma noite de tentar me acomodar / dormir num banco de ônibus!!!!
Abraço



Flavio Ferrari
em 27/2/2007

Brilhante como sempre, meu caro.
Estava prestes a dormir, um tanto deprimido, quando deparei-me com essa obra prima.
Acontece que quando começo a ler um livro que gosto, não consigo parar.
Não me restou outra alternativa senão a de escrever eu mesmo o segundo capítulo, lá no Arguta Café.
Ainda que não se possa esperar muito de um autor auxiliar, mais jovem, inexperiente e com sono, pelo menos irá distrair seus leitores enquanto esperam o Gabriel preparar o powerpoint.



Anônimo
em 27/2/2007

(1)- Demais,deli...
Lú.



ti bell
em 27/2/2007

Fiquei animadíssima!! Não vejo a hora de mudar de blog....



Ernesto Dias Jr.
em 27/2/2007

Esse negócio de folhetim parece que vai pegar no GAMBA - Grupo As Musas de Blogs Associados.



Ernesto Dias Jr.
em 27/2/2007

Trocadilho besta...



Amanda Arthur
em 2/3/2007

cheguei um pouco atrasada... não acredito que estava perdendo essa história!




 




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