Publicado em
10/6/2009
Mais:
Belinha e o blog
©2008 Ernesto Dias Jr.
Como tantos outros antes dele, Gregório não podia acreditar na própria sorte.
Semanas de velada paquera, flores, sugestões discretas. Sobretudo muita prudência, de vez que a vítima era casada.
Mas agora teria sua recompensa. Belinha. Conseguira que Belinha aceitasse ir ao seu apartamento. Não tinha pressa. Respeitara a vontade da moça quando pedira para banhar-se sozinha. Já suspeitara que fosse tímida. Fora seu recato, sua maneira lânguida de baixar os olhos quando cortejada (saberia ela como isso a fazia sexy?) que ateara fogo às suas paixões, que o fizera insistir enquanto outras esperavam na fila para jogar-se em sua cama.
Ouvia da sala o chuveiro da suíte enquanto preparava os drinques. Pensou em tirar a roupa, abrir a porta e avançar sobre ela, mas temia não ser esse o estilo da presa. Melhor não por tudo a perder logo agora. Sem pressa.
Gregório vira Belinha pela primeira vez há pouco mais de três meses, quando o moço do RH fora de sala em sala apresentar a nova assistente da diretoria. Tesão à primeira vista. O tailleur justinho marcado pela calcinha, o decote estreito, mas profundo, o rebolado discreto, mas revelador.
Sua primeira investida na saleta do café fora um desastre, mas permitiu-lhe mudar de tática e assumir um papel contrito, elaborar uma abordagem com toques de redenção, de arrependimento. Dera certo e logo Belinha recebia seus mimos cada vez com mais boa vontade.
O barulho do chuveiro cessou.
Gregório pegou os martinis e dirigiu-se ao quarto, pensando surpreende-la com a toalha enrolada ao corpo e imaginando como tirá-la com as luzes acesas.
Não foi preciso. Belinha estava nua, escovando os cabelos em frente ao grande espelho, o que lhe dava uma dupla visão do corpo da moça. Era mais, muito mais do que imaginara.
-oOo-
-- Você não está pensando no seu marido, está?
Belinha riu, e desta vez com uma sombra de malícia nos olhos.
Fazia uma hora que ela o estava tentando, num jogo que não pensara possível vindo de uma mulher tão difícil. A princípio ela aceitara o abraço, por trás, que ele impulsivamente lhe dera e que acabou por derramar um tantinho da bebida em seu seio.
Então ela se virara e o fizera lamber.
Gregório já a puxava para a cama quando Belinha, num gesto brusco, adiantou-se e o atirou sobre os lençóis. Depois disso ela assumiu o domínio das preliminares. Despiu-o de modo a provocar mais excitação para depois distraí-lo, deixar que relaxasse e então começou de novo. Fogo e água, fogo e água, numa montanha russa embriagadora e jamais experimentada. Ele deixando-se levar, sabendo que não estava longe a hora de possuir aquele corpo loucamente belo.
-- No meu marido? Porquê pensaria no meu marido logo agora?
-- Bobagem minha. É que você ficou pensativa de repente.
-- Não é mais provável que eu estivesse planejando alguma coisa para você? O Nélio agora só quer saber do seu blog.
-- Blog?
-- É, blog. Ele montou um blog. Vive escrevendo, horas a fio. Às vezes vara a madrugada. Diz que descobriu seu lado escritor.
Gregório achou que era hora de subir a montanha de novo.
-- Eu jamais deixaria você sozinha na cama. O que você planejou agora?
Belinha esfregou sua coxa na perna de Gregório antes de responder.
-- Espera. Vou precisar do martini.
Os copos, ainda intactos, estavam esperando sobre o criado-mudo. Belinha rolou o corpo. Ergueu o torso, esticou o braço para alcançá-los e então aconteceu o desastre.
Gregório aproveitou a posição para correr a mão naquelas nádegas de sonho. Belinha assustou-se e, no movimento, bateu nas taças. O líquido derramou-se sobre o móvel. Móvel caro, de mogno maciço.
-- Ai! Olha o que você me fez fazer!
-- Deixa, não é nada... vem aqui...
-- Mas vai estragar! Está escorrendo para dentro da gaveta...
-- Belinha, meu amor, não é nada...
-- Então deixa pelo menos tirar a gaveta. E se estragar alguma coisa?
-- Não tem nada pra...
Mas Belinha já havia aberto a gaveta e preparava-se para salvar o que quer que estivesse lá dentro.
Parou. Sentou na cama e curvou-se para ver melhor.
-- Gregório.
-- O que foi, meu amor?
-- Gregório!
-- Belinha...
-- Gregóooooooorioooo!!
-- Belinha!
-- Seu filho da puta!
-- Do que você está falando?
-- Disto, Gregório, DISTO!
Belinha recolhera da gaveta uma moldura. Nela uma fotografia, mostrando um Gregório sorridente e feliz ao lado de uma moça morena e ligeiramente acima do peso. Entre eles uma garotinha, seis, sete anos, sorrindo para a câmera e mostrando a falta de um dentinho da frente.
-- Você não me disse que era casado!
-- Belinha, você não perguntou amor...
-- Não me chame assim! Bateu com o quadro com força no peito dele.
-- Aaai! Espera, como é que... isso ... onde estava isso...
-- Onde estava? Onde estava, seu cachorro? Estava onde você escondeu!
Belinha saltou da cama e enrolou-se na toalha. Recolheu a roupa sobre a cadeira, apanhou sua enorme bolsa e, sem mesmo vestir-se, atravessou a sala e desapareceu batendo a porta da frente.
Gregório, ainda aparvalhado e com a fotografia na mão, tentava entender como aquilo podia ter acontecido.
-- Porra, mas ela também não é casada?
-oOo-
O barulho da chave jogada sobre o aparador e o toc-toc do salto eram inconfundíveis.
-- Belinha?
-- Oi meu amor. Onde você está?
-- Onde mais? Aqui no computador...
Belinha dirigiu-se ao estúdio, aproximou-se do marido e beijou-lhe a nuca.
-- Mais trabalho, Nélio?
-- Já acabei querida. Você sabe que não gosto de usar o computador em casa. Acaba viciando. Mas amanhã saio cedo para Brasília e tinha que terminar isto aqui.
-- Brasília? De novo meu bem? Belinha fez um muchocho e sentou-se no colo dele.
Nélio não se fez de rogado. Enfiou a mão devagar por baixo da saia dela percorrendo-lhe a coxa bem de leve, com as unhas, como ela gostava. Belinha estremeceu.
-- Chegou em casa com vontade hoje, não foi querida?
-- E você nem sabe quanto, sussurrou ela mordiscando-lhe a orelha.
-- Antes ou depois?
-- Depois – riu Belinha – depois. Antes tenho que fazer uma coisa no computador.
Levantou-se.
-- Enquanto isso você faz o jantar hoje, certo?
-- Combinado. Mais uma história para o blog?
-- E que história!
Nélio já estava na porta quando disse:
-- Não sei onde você arranja tantas histórias, meu bem.
Belinha deu uma gargalhada.
-- O mundo é cheio de histórias, Nélio.
E começou a teclar com fúria. As leitoras do www.pubys.blogspot.com não podiam esperar.
António Tapadinhas
em 10/6/2009
Anne
em 10/6/2009
Beijos
miro fernandes
em 10/6/2009
Avassaladora
em 11/6/2009
Se não falar , peco pela falta...
Duvida cruel!
Ernesto, simplesmente deliciosa a história da Belinha.
Vou seguir sua dica e começar e ler a saga da Belinha...rs
Beijos avassaladores!
Flavio Ferrari
em 12/6/2009
Avassaladora
em 12/6/2009
Pô, rezar tudo bem... Mas joelho no milho???
Acho que não pequei tanto...rsrsrs
Severo demais vc....rsrsrsrs
Beijos avassaladores!
Jorge Lemos
em 14/6/2009
É sempre assim: se correr o bicho pega, se parar o bicho come...
Enigmas sempre seu Gregório.
Belo texto
Lemos
Ti
em 15/6/2009
Érica
em 15/6/2009
Greta Garbo = phina!
"Pubys", sr. Ernesto, me lembra oooutra coisa! ham ham
Ernesto Dias Jr.
em 24/6/2009
Belinah é, sempre, muito calorosa.
Anne:
Viu? Nem só de mau humor vive o homem.
Miro:
As estórias de Belinha não são autobiográficas não. Ara!
Ava:
O autor, penhorado, agradece... (podes dispensar o milho).
Flávio:
Não seja tão severo!
Jorge:
Mas desta vez o bicho ficou a ver Belinhas...
Ti:
Adorei que tenhas adorado!
Érica:
De fato, tenho uma dívida pubiana contigo.
Diga alguma coisa








E com um final (ia dizer à Hitchcock) mas agora digo à Ernesto...
Abraço.
António