Publicado em
30/7/2007
Mais:
Os Ovos do Dragão
©2008 Ernesto Dias Jr.
Capítulos anteriores
Parte 1 - O início do fim
Parte 2 - Separação
Parte 3 - O destino de Isabela
Parte 4 - Vigília
Parte 5 - O Anel
Parte 6 - Sublimação
Parte 7 - Razões e Sentimentos
Parte 8 - O Dragão Desperta
Parte 9 - Intenções Imperfeitas
Parte 10 - Revelação
Parte 11 - Per omnia saecula saeculorum
Última parte
O Fruto
Nota:
O penúltimo capítulo já está publicado no Arguta. Não vá ler fora de ordem...
-oOo-
(Cinco anos depois... )
Os motores do avião agora apenas ronronavam.
Fora um dia agitado, mais um, em Paris. O evento deveria ter acabado antes do por do sol, mas Fernando Ferrari só deixara a Virgin quando a Champs Eliseés fervilhava de gente nas mesinhas das calçadas, depois de um dia de trabalho no calor de julho. Um típico anoitecer parisiense.
Apesar disso, tinha algum tempo. Seu agente o esperava para um copo de vinho no Junot, bem ao lado. As malas estavam prontas. Não voltaria à França tão cedo.
Mal ouvira o homem. De onde estava, podia ver a vitrine montada especialmente para exibir o livro. Meio milhão de exemplares vendidos na Europa e isso era só o começo. Sua vida transformara-se num turbilhão. Sessões de autógrafos sem fim. Palestras. Jantares. Entrevistas cuidadosamente selecionadas. Um pequeno batalhão de assistentes, secretárias, assessores e advogados cuidavam de tudo. Gente que ele mal conhecia, mas que gravitava em torno do seu sucesso.
Sabia que podia confiar em Louis, e isso o tranqüilizava. Este, por sua vez, não cansava de repetir que tudo estaria sob controle durante sua ausência. Oito novas edições, em oito diferentes idiomas estavam a caminho. Fernando recusara-se a acompanhar os lançamentos, para decepção dos editores. Mas fincara pé. Era hora de voltar ao Brasil. Hora de ir para casa.
Albert, o motorista, já ligara para dizer que apanhara a bagagem em seu pequeno apartamento da Saint Honoré, como combinado. Encostara no meio fio à hora aprazada. Fernando despedira-se de um Louis choroso como um camponês ao se apartar de sua galinha dos ovos de ouro, e finalmente respirara um pouco a caminho do Charles de Gaulle.
O vôo tinha sido tranqüilo, mas Fernando não pregara o olho. Retornar a São Paulo depois de tanto tempo, enfrentar recordações, tudo era um pouco assustador.
Não tocara no café da manhã servido pela comissária. Em vez disso, apanhara o livro na bolsa mais uma vez. Gostava de vê-lo impresso em português, tal como o escrevera. Acariciou a capa. Um animal mordendo a própria cauda. Em vermelho, o título. Os ovos do dragão. Em sua mente, uma idéia brincava. Teria ele coragem, algum dia, de contar a história daquele livro?
-oOo-
O carro avançava pela estrada sinuosa. Tudo era exatamente como ele lembrava. Apenas desta vez a manhã era fria e chuvosa, como se o calor e a luminosidade tivessem ido embora junto com Marie.
Não sabia o que iria encontrar. Talvez Barceló e Isabela. Talvez a casa não existisse mais. Tentara, durante os últimos anos, descobrir o paradeiro de qualquer um deles, em vão. Maurice, Marie e Adric desapareceram sem vestígios. Trocara ainda algumas cartas com o velho. Barceló o ajudara com um detalhe aqui e ali, mas recusava-se a falar de seus companheiros. De repente, o contato foi rompido e toda correspondência devolvida.
Finalmente chegou. O antigo jardim estava diferente, com trechos de cascalho onde carros jaziam estacionados, como monstros gélidos e úmidos ao frio do dia que começava. De quem seriam?
Fernando esperou ainda algum tempo enquanto decidia o que fazer. Uma mulher gorda e sorridente abriu a porta e acenou. Para além dela o escritor podia ver as luzes das lâmpadas incandescentes, espalhando uma luminosidade quente e acolhedora. Tomou coragem e desceu do carro.
O salão não fora propriamente reformado. Mas os mesmos móveis ocupavam agora posições diferentes, e um novo balcão, feito por um marceneiro hábil, combinava perfeitamente com o ambiente. Compreendeu que estava numa espécie de hotel.
A mulher postou-se atrás do balcão.
— Bom dia! O senhor tem reserva?
— Não sei bem — hesitou Fernando — não esperava encontrar uma pousada por aqui. Estou de passagem. Talvez fique, talvez não.
— Então sente-se ali. Vou buscar um café quente enquanto o senhor resolve.
Fernando tirou as luvas e foi sentar-se à mesa. Seus olhos voltaram-se para a escada. As veias do seu pescoço pulsavam enquanto sua mente via Marie mais uma vez, o corpo nu iluminado pela luz das vidraças. Resistiu à tentação de subir atrás do fantasma.
— Aqui está. Vou tomar um com o senhor, se não se incomodar.
A mulher sentou-se à sua frente, em silêncio. Aquecia as mãos na caneca enquanto observava o visitante. Este parecia olhar tudo com curiosidade, examinando cada detalhe do salão. Algumas vezes seu semblante parecia perder-se em recordações tão intensas que não parecia possível ocultar.
— O senhor já esteve aqui.
— Sim, estive. Há muito tempo atrás.
— Eu sei.
— Sabe?
— Pode parecer esquisito, mas tenho uma fotografia sua.
Fernando fitou a mulher. Aquele lugar seria sempre uma cornucópia de surpresas para ele? A mulher estendeu a mão.
— Meu nome é Rosalva.
— Fernando — respondeu o escritor, sentindo o aperto de mão firme e decidido.
— Fernando... — repetiu ela — imaginei muitos nomes para o senhor, mas esse não foi um deles. Mas não fique tão espantado. É tudo muito simples. Meu filho e eu compramos este lugar de um espanhol. Foi um bom negócio, acredite. Foi ele quem me deu a sua fotografia.
— Barceló? E porquê?
— Barceló? Bem.. talvez ele tenha mudado, não sei. Mas o nome no contrato é Bartolomeu, não Barceló.
— E para quê lhe deu ele minha fotografia?
— Para que eu o reconhecesse quando voltasse aqui. Ele me garantiu que o faria. E me pediu que lhe entregasse uma coisa.
Rosalva tirou do bolso do avental uma caixinha. Era um objeto comum, feito de pinho, sem trava nem fechadura. Fernando tomou-a em silêncio. Nenhuma marca. Abriu. A tampa mantinha-se fechada apenas pelo efeito de uma mola. Dentro, sobre um pedaço ordinário de espuma, uma chave e um pedaço de papel. Fernando desdobrou-o e leu.
— É apenas um endereço.
— Sim, eu já vi. O senhor Bartolomeu disse que eu poderia abrir e olhar à vontade. Mas que não deveria dá-la, nem mostra-la a ninguém a não ser ao senhor. Na verdade foi uma exigência para que nos vendesse a casa. Há também uma senha.
— Senha?
— Sim. Ele disse que o senhor entenderia. A senha é um nome de mulher. Não disse mais que isso.
— E onde está ele agora?
A mulher deu de ombros.
— Não sei. Até onde entendi, voltou para a sua terra. Catalunha, acho.
— Havia uma mulher com ele...
— Sim, sua esposa. Formavam um belo casal. Ainda tenho uma fotografia de nós quatro, do dia em que nos entregou as chaves.
— Eu poderia vê-la? Fernando sentiu-se excitado com a perspectiva de ver Barceló e Isabela uma vez mais.
A mulher foi até o aparador junto à lareira, onde havia uma dúzia de porta-retratos. Pegou um deles. Fernando tomou-o nas mãos e levantou-se, aproximando a fotografia da lâmpada para ver melhor.
Lá estava a moça gorda, tendo ao lado um rapaz alto e um tanto calvo. Isabela sorria, linda e exuberante como Fernando dela se lembrava. Usava um vestido branco e longo, simples como a túnica de uma vestal, traindo seu corpo perfeito. Enlaçava a cintura de Barceló num gesto de satisfeita posse. O bruxo estava empertigado, olhar penetrante e vivo. Tão jovem quanto ela, mas ainda com certeza Barceló.
-oOo-
O banco ficava na Avenida Paulista. Fernando caminhava por ela ainda atônito. No cofre eletrônico cuja senha era um nome de mulher, encontrara seu passado uma vez mais. Fechado cuidadosamente em um envelope grosso, uma gravura antiga. A lâmina original de Lambsprink que dera origem a tudo. E um anel. Igual ao que vira há muito tempo na mão de um feiticeiro. Ajustara-se perfeitamente ao dedo do escritor, que o colocara emocionado, sabedor de seu significado. Ele era, agora, um deles.
E uma carta. Breve, porém tendo lido apenas uma vez Fernando sabia que ficaria gravada em sua memória para sempre.
Caro Fernando:
Sei que a fortuna lhe sorri ao tempo que lê isto. E também que, se lhe chegou às mãos esta carta, é porque ainda lhe tocam os dias do casarão.
Marie e eu lhe somos devedores. Ela está feliz, tendo realizado seu mais querido sonho, através de você. Talvez encontre seu fruto, talvez não.
De minha parte, compreendi desde o começo que a única maneira de conservar o amor de uma vida foi entregando-o a você, mesmo que por um instante.
Quanto ao anel, siga seus instintos e ele lhe será útil. Quando chegar a hora, ele fará por você o mesmo que faz por mim.
Marie, ao meu lado, manda um beijo carinhoso e grato.
Fraternalmente,
Maurice.
Fernando atravessou a galeria. Chegara bem a tempo para a estréia. O emaranhado de cabos que sustentava a rampa da Livraria Cultura contribuía para o efeito hipnótico lançado pelos eventos das últimas horas.
-oOo-
A fila parecia não acabar nunca. Sua fama o precedera através das resenhas em todas as revistas e jornais do país. A editora não poupara esforços — nem dinheiro. A mesa fora posta sob o grande dragão que, pendendo do teto alto, decora ironicamente a famosa livraria.
Fernando traça pela milésima vez sua assinatura sob a dedicatória. A mocinha alegre e perfumada não resiste e, inclinando-se, beija o escritor no rosto enquanto recolhe seu exemplar. O autor perdera a conta de quantos seios apreciara dessa maneira aquela noite.
Fernando sacode a cabeça para espantar a visão e estende a mão para pegar mais um livro aberto. Olha para cima e seu coração dispara. À sua frente, uma menina fita seus olhos com intensidade. Os cabelos negros e levemente encaracolados emolduram o rosto familiar, os olhos suaves, a boca generosa.
A mãozinha aperta a de um homem que um observador tomaria por seu pai.
— Olá Fernando.
A voz de Adric ecoava profunda, diferente, sem o tom zombeteiro de antes.
— Meu Deus! É mesmo você?
— Claro que sou. Não poderia perder este seu momento por nada deste mundo. E nem Elizabeta.
— Elizabeta... Você é Elizabeta?
— Você só sabe dizer perguntas?
Quase refeito, Fernando tentou adivinhar quantos anos teria a menina. O corpinho dizia seis, talvez sete. Mas o olhar e a voz traíam uma inteligência e vivacidade insuspeita para o tamanho. Concluiu que estava diante de uma criança de idade imprecisa, coisa que nunca imaginara.
— É o que eu faço. Escritores fazem muitas perguntas. Preciso ter certeza do nome das pessoas para poder escrever a dedicatória.
— Preciso de duas.
— Duas dedicatórias?
— Claro. São dois livros, não vê?
Até então Fernando não tinha reparado que eram dois.
— É lógico — disse Fernando rindo — vocês são dois.
— Um é para mim, o outro para minha mãe.
Fernando percrustou o rosto de Elizabeta. Adric havia se afastado um pouco, como a dizer que aquele momento não era dele. Fernando tomou da caneta e começou a escrever. Primeiro para a menina. Sem pensar, escreveu apenas “com muito amor” sob o nome dela, e assinou. Não era o que escreveria para uma menina desconhecida, mas não pôde evitar. De alguma forma, era o certo. Era o que deveria dizer.
Depois, vagarosamente e sob o olhar curioso e atento de Elizabeta, abriu o segundo livro e escreveu o nome de sua mãe. Antes de fechá-lo, releu a única palavra que escrevera: “Obrigado”.
Elizabeta apanhou os livros e, ao fazê-lo, tocou a mão de Fernando. As paredes diluíram-se, e tudo desapareceu. Um cheiro forte de mato penetrou-lhe as narinas e devolveu-lhe o cenário e as sensações de um jardim, anos atrás. Sensações agora despidas de dúvidas, de libido e de desejos. Só o frescor de uma felicidade juvenil e avassaladora.
Adric pegou na mão de Elizabeta.
— Vamos, meu bem. Temos que ir.
E voltando-se para Fernando:
— Não se preocupe. Elizabeta não vai desaparecer.
Acompanhou com o olhar a menininha de vestido cor-de-rosa até que, à saída do mezanino, ela lhe acenasse sorrindo.
Fernando Ferrari, o escritor, soube então que chegara, finalmente, em casa.
Anne M. Moor
em 30/7/2007
zuleica-poesia
em 30/7/2007
Lú
em 30/7/2007
Lú.
Lú
em 30/7/2007
Para a arte
Para o sentido
Pelos sentidos
E por todo o tudo.
Ti
em 30/7/2007
Cheguei tarde e é difícil escrever qualquer coisa que já não se tenha dito...
Porém ainda acredito que o reforço é sempre positivo!!
Adoraria um dia presenciar, neste mesmo espaço, o lançamento do livro de vocês!!
Parabéns!!
Leticia
em 30/7/2007
Um enorme prazer escrever mais uma historia em parceria com o Ernesto, desta vez com papeis trocados.
Os capitulos 10 e 12 foram uma surpresa para mim.
Ernesto, com rara (nao nele) elegancia encaminhou o desfecho da trama construindo-o, por pura intuicao (ou nao), sobre os dois pilares que eu havia imaginado no inicio: o desejo da juventude eterna e as tramoias da iniciacao esoterica.
De fato, nao esperava menos, ja que a estoria se escreve por nossas maos. Mas adorei o texto e o contexto, inesperados.
Espero que nossos leitores tenham tambem apreciado as infinitas possibilidades que foram deixadas em aberto nos ultimos 3 capitulos.
" Nem sempre eh o que se ve."
Obrigado por mais essa, amigo.
E nem preciso dizer que nossos leitores e leitoras sao a razao de existir, a inspiracao e a motivacao para escrever.
Um enorme beijo e um abraco bem quentinho para voces.
Espero que tenhamos correspondido sua generosidade.
Leticia
em 30/7/2007
Melhor nem tentar comecar a explicar ...
Tina
em 30/7/2007
Anne M. Moor
em 31/7/2007
Lú
em 31/7/2007
Por isso estou pedindo um espacinho aqui pra fazer um comentário( e não me sentir inconveniente palpitando no lugar errado).
Então lá vai:
Tina e Letícia:
Isso e que eu chamo de um verdadeiro "balaio de gatos" , e que absolutamente não precisa de explicação nenhuma...
Seres humanos....
Que maravilha....
Adriano
em 1/8/2007
PPNC
Lú
em 1/8/2007
Ta pedalando muito?
Bjo.
Saudade...
Udi
em 2/8/2007
Seria "Letícia" algo como "cenas da próxima ficcção"?
Anne M. Moor
em 2/8/2007
Diga alguma coisa








Queremos ver o livro...
Parabéns aos dois escritores e poetas, que com sua maneira de manejar as palavras e estruturas e com o seu senso de humor inteligente conseguiram, a 4 mãos, produzir imagens inesquecíveis e de certa maneira muito presentes em nossa aldeia mágica...