Publicado em
28/2/2007
Mais:
Pecado e capital
©2008 Ernesto Dias Jr.
Links para os capítulos anteriores:
Parte 1 - O Céu
Parte 2 - A Terra
Parte 3 - O sexo dos anjos
Parte 4 - Beata Constância
Parte 5 - Conspiração
Uma das vantagens de se viver no Céu é estar acima das nuvens. A salvo, portanto, dos humores do velho Pedro. Ele podia exercitar-se nos chuviscos, chuvaradas e tempestades lá embaixo, sobre os mortais. Mas no Paraíso o céu apenas mudava de cor, conforme a vontade do Homem. Umas vezes pálido e aguado. Outras profundamente azul e luminoso. Ainda outras violáceo, introspectivo, o equivalente celeste de um prenúncio de tormenta. Aquela era uma dessas tardes, sinal seguro de que o Homem estava por alguma razão meditabundo ou deprimido.
Gabriel relutara a princípio em chamar Leonardo ao seu gabinete, mas o momento não era para pruridos anais.
O amigo trouxera com ele sua misteriosa companheira. A moça preferira sentar-se à janela, ereta e com aquele sorriso-que-não-era-sorriso nos lábios. Os seios — pensava Gabriel — os seios não eram lá grande coisa. Preferia os de Maria Celeste. Mas as mãos cruzadas no regaço tinham um quê de excitantes, de convidativas. Do que não seriam capazes aquelas mãos!
Leonardo jogou o relatório que acabara de ler sobre a mesa. O estalo desviou daquela pintura de rapariga a atenção do arcanjo.
— Isso é tudo o que você sabe?
— Isso é tudo o que recebi do Anjo da Guarda encarregado do setor. Com base na última transmissão do Anjo da Guarda do Jailton e de poucos outros ao redor.
Leonardo olhou com desgosto para o aviso que proibia fumar. No bolso do gibão seus dedos acariciavam um pacau novinho, novinho.
— Vamos repassar os fatos. Esse seu agente — todos os Anjos da Guarda eram conhecidos como “agentes” de Gabriel — estava com o homem quando ele abriu o arquivo. Agiu com presteza ao ver o efeito que sua... ahn... apresentação havia provocado no mortal. Estancou a adrenalina para controlar um pouco o coração enquanto botava o dedão naquele aneurisma para que não explodisse. Com isso o sujeito conseguiu sair ileso dessa experiência, digamos, transcendental.
— Sim. Esse pequeno defeito congênito está programado para levá-lo à Sala de Avaliação e Julgamento... — folheou a ficha de Jailton para ter certeza — durante a sua terceira audiência de divórcio, daqui a muitos anos ainda.
— Muito bem. Quando o seu agente sentiu que não teria mesmo que trazê-lo para cá, ele o abandonou. Isso não é comum, é?
— Não. Não é. Mas o Jailton é uma alma de categoria seis, o que exige um agente mais atilado e experiente, como você sabe. Foi um golpe de sorte termos escolhido um mortal assim. Qualquer outro Anjo da Guarda teria dado sua boa ação do dia por concluída, mas o agente na cena da ocorrência tem um maior raio de ação negato-sensitiva, e detectou os eflúvios do estacionamento. Além disso, você viu no relatório que o homem estava assistido, pelo menos no que diz respeito à sua camada emocional.
— Ah, sim... a mulher. Ela parece interessante e... — um discreto pigarro da moça da janela impediu Leonardo de dizer o que pensava da mortal Constância.
— Então — continuou ele, retomando o fio — o seu agente bateu asas até o estacionamento. Foi lá que encontrou os dois homens no carro. Não a tempo de ouvir o que conversavam, infelizmente. Mas uma coisinha aqui outra ali ele escutou.
— Um fiapinho de conversa, e é só.
— Mas alguém falou alguma coisa sobre anjo não ter sexo, não foi?
— Foi. Isso é importante?
— Veremos. O que aconteceu depois é que preocupa. O seu agente saiu do ar.
O tique nervoso da asa esquerda do anjo manifestou-se novamente. Aquela era a parte que ele menos gostava nessa história toda. O seu agente fora imobilizado de uma forma que nenhum mortal poderia fazer. Além disso, estava incomunicável há mais de vinte e quatro horas, o que fazia suspeitar de um halo transdimensional impeditivo. E esse tipo de coisa só poderia ser controlado do lado de cá.
— É. Podemos dizer que sim. O que aconteceu depois nós sabemos pelo Anjo da Guarda do ascensorista, que viu o Jailton sair com a tal mulher. Supomos que foi levado ao mesmo carro e dali, só o Homem sabe para onde. E embora o saguão e o estacionamento estivessem cheios de gente, era uma sexta-feira treze, dia de folga da maior parte dos Anjos da Guarda. Isso nos deixou sem muitas testemunhas.
— Melhor não programar nada importante em sextas-feiras treze no futuro — arrematou azedo Leonardo.
Depois, com ar professoral, pontificou:
— Mas não estamos completamente cegos nessa. Alguma coisa estava preparada para o evento, o que indica que, quem quer que tenha feito isso, tem um informante aqui por perto.
O cacoete da asa de Gabriel era agora tão evidente que fazia até algum ventinho na sala. Colocou o tinteiro sobre uma pilha de papéis para que não voassem.
— Já pensei nisso — disse o anjo. Mas por onde começo a procurar?
— Você perguntou se o pouco que temos da conversa dos homens no carro tinha alguma importância. Eu acho que tem. Pode não dizer do traidor, mas dá uma pista sobre que quem está por trás disso. Na conversa que seu agente transmitiu antes de ser pego de mantas curtas menciona alguma coisa sobre anjo não ter sexo.
— Sim, o ouvido treinado do Anjo da Guarda ouviu alguém dizer isso. A voz que vinha do telefone.
— E que tipo de anjo não tem sexo?
— Os caídos é claro! Faz parte do castigo!
— Pois eu afirmo que algum deles está metido nesse negócio.
Gabriel olhava para o céu junto à janela. Leonardo e Mãos-de-Delícia há muito tinham ido embora. Aquele sujeito maluco de chapéu estranho estava lá fora de novo, voando naquela maquininha barulhenta ao entardecer. Tal como Leonardo, ele recusara as asas de verdade quando chegara ao Céu. Inventores...
Sua asa já não tremia tanto, mas não se aquietara de todo. Os conselhos de Maria Celeste estavam-se revelando preciosos. Leonardo o colocara naquela encrenca, Leonardo o tiraria. O que prometia ser um grande projeto começara mal. Nem o seu business plan ele conseguira apresentar direito.
Voltou para o lado da mesa. Tocou carinhosamente com uma de suas penas a fotografia da esposa. Depois agarrou a pasta e saiu da sala batendo a porta. Hora de ir para casa.
Flavio Ferrari
em 28/2/2007
Anne
em 28/2/2007
Anônimo
em 28/2/2007
Lú.
Flavio Ferrari
em 1/3/2007
A moça literalmente é uma promessa.
Udi
em 1/3/2007
Gostei de tudo, principalmente o tique nervoso manifesto nas asas, mas o aneurisma no meu anti-herói é preocupante.
Anônimo
em 1/3/2007
Não sou escritora, pra ter idéias mirabolantes..., melhor desconsiderar a parte final do comentário.Mas, que merecem o céu, merecem...Bjo.
Lú.
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Ao trabalho.
Enquanto isso, naquele pequeno planeta ...