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Publicado em
14/3/2007

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Pecado e capital
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Pecado e capital

©2008 Ernesto Dias Jr.




Links para os capítulos anteriores:
Parte 7 - Revelação
Parte 8 - Nas asas de Azazel
Parte 9 - Um anjo se prepara
Parte 10 - Vox populi, potere Dei

Parte 11 - Alea jacta est

Gabriel encarou Azazel, ainda refestelado na poltrona.

— Podias ter telefonado. Eu te faria uma visita e negociaríamos. Encheríamos a cara com aquele excelente Néctar da tua adega, como no passado. E chegaríamos a um acordo. Tu sabes que o Homem me deu poderes para tanto.

Continuou, apontando para Jailton.

— Mas não! Tinhas que usar um mortal para alimentar tua sede de poder e lucro. Tinhas que arquitetar um plano. Mais um. Estou ficando cheio deles.

Azazel, com um floreio, curvou-se dizendo:

— Mas hás de convir que é um belo plano. Muito arguto.

Jailton chamou a atenção dos dois.

— Plano? Que plano?

— Fazer de ti um Eleito, meu rapaz — respondeu o anjo — Mas aquieta-te. Vou dar-te os detalhes, e quem sabe poderás sair desta sem muito dano.

— Com que então entendeste os detalhes? — Azazel soltou uma gargalhada — Então sabes que não há saída para o mortal, nem para ti.

Gabriel fez que não ouviu. Começou a caminhar pela sala, sem dar as costas para o Caído.

— Jaílton — falou — vou te dizer como funciona teu mundo. Senta-te.

Jailton aboletou-se numa pequena almofada sobre o magnífico tapete.

— Teu universo só existe porque vós, criaturas, existís. Porque vós o observais, e tendes consciência dele. Se apagam-se vossas vidas, todas as vidas, ele não mais existirá. Se cessardes de observá-lo, tudo volverá ao que realmente é: energia entrecruzando-se em meio ao nada, até retornar à sua fonte original.

Azazel recostou-se um pouco mais, cerrando os olhos. Já ouvira tudo isso antes.

— Mas vós não dais apenas significado e existência ao universo. O universo é moldado por vós. Por todos que nele habitam. Pela média de tudo o que sois, pensais, e principalmente, acreditais.

— Lá vem sermão — murmurou Jailton. Gabriel deu de ombros.

— Nós do lado de cá costumamos deixar a coisa correr. O esquema já está armado e tudo o que fazemos é cuidar da ordinária administração. Mas às vezes é preciso dar um retoque aqui, um empurrãozinho ali. Nada muito grande entende? Só para manter o cronograma no prazo.

Com o rabo do olho, Gabriel vira Azazel mexer-se. Começava a ficar inquieto, talvez se perguntando até onde o anjo teria coragem de chegar.

— É aí que entra o Eleito. Um Eleito é só uma alma que sabe mais sobre as coisas que a média dos mortais. A gente bota ela lá e, como compreende muito mais que vós, vossa compreensão média aumenta. É como se vós fosseis um só observador, agora mais evoluído. E o universo começa a mudar. Vencida a inércia, vosso mundo começará a refletir a própria consciência coletiva.

— Era o que me faltava — sorriu Jailton — um anjo que leu Jung.

— Na verdade foi ele quem me leu — devolveu Gabriel sorrindo — Mas é preciso que entendas que não só a sabedoria de um Eleito transforma. O universo tende a tornar-se a própria essência do Eleito. Por isso sempre escolhemos uma alma de elevados princípios. Luminosa, além de sábia.

— Ótimo. Alguém esqueceu de dizer isso para o Azazel ali. Eu não caibo nesse modelito, então...

Azazel ria. Gabriel interrompeu Jailton com uma penada.

— Tarde demais, filho. Tu já és um Eleito. Azazel levou-te a uma jornada pelo início dos tempos. Agora sabes de onde vieste; tu e os teus irmãos. Não lembras, mas lembrarás. Azazel armou-te como a uma bomba. Velou teu conhecimento por um tempo mas, em algum momento futuro, tua alma recordará. E tu saberás mais que qualquer mortal jamais soube. Mais do qualquer Eleito antes de ti, na verdade. Tu, sozinho, elevarás tanto o teor do que sabem de si os mortais, que o universo começará a mudar. A copiar tudo o que és.

— E ele não é grande coisa! — bradou Azazel agora com os olhos vermelhos de tanto rir.

Gabriel apertou os dedos sobre o cabo de sua espada e apontou-a para o Caído. Azazel fez um muxoxo e tornou a sentar, rosnando. De sua parte, Jailton jurou que se um dia aquele cara aparecesse na Terra, não sairia de lá inteiro. Engoliu a raiva e perguntou:

— E o que Azazel ganha com isso? De graça é que não é...

— Suas hostes alimentam-se do Caos. Mas isso não importa. Ele não pode mudar o teu mundo. Mas tu podes.

Gabriel sentou-se ao lado de Jailton.

— E esse é o ardil. Teu conhecimento da origem das coisas faz de ti um Eleito. Isso nada muda, pois o que viste é verdadeiro. Quando muito serás chamado de louco. Mas são tuas crenças que servirão a Azazel. Tua fé. O universo se curvará ao que acreditas. Por isso ele urdiu esta disputa, na qual tentou convencer-te das vantagens dos muitos Deuses, e espera que eu te faça pender para um Deus único.

— Tá. Entendi. Então você me diz como é Deus de verdade, eu calo a boca quando chegar a hora para não ser crucificado, e o mundo fica melhor porque eu acredito no Deus certo. Acho que isso resolve tudo.

— Não vai funcionar, Jailton.

— Qual parte?

— Te dizer qual é o Deus de verdade.

— E porquê? Não sou tão burro assim. Você pode me dar só uma idéia. O resto eu desenvolvo lá em casa mesmo.

— O problema não é tua inteligência. O problema é que Deus não existe.

— Peraí... que diabo de anjo é você... Puta merda! Isso aqui é pior do que eu pensava...

Azazel, ao contrário do mortal, antecipava o que viria depois. Seus olhos brilharam com profundo ódio, um ódio tão antigo que não tinha começo.

— Escuta — disse Jailton — se você é mesmo um anjo, mora onde?

— No Céu, claro.

— E se há Céu, há alguém que mande lá, não é assim?

— Há sim.

— E não é Deus.

— Não.

— É claro. Que estupidez a minha. Vocês dão outro nome pro chefão, não é? Tupã ou Manitu, quem sabe.

— Ele é o Chefe sim. E muito poderoso. É o mesmo a quem chamais por tantos nomes, e para quem orais. Não me entendas mal... é a pessoa certa a quem pedir as coisas. Mas não é Deus.

Gabriel suspirou antes de continuar. Se aquele Eleito entendesse como não era Deus, já estaria afastado muito do risco.

— Faze de conta que és um deus. Estás, portanto, em todos os lugares. Não tens princípio nem fim. Como te definirias?

— Infinito, acho.

— Infinito. Tens também o poder para fazer o que quiseres. És onipotente! Mas estás sozinho no universo. És a única coisa que existe. Então resolves criar o mundo, certo?

— Certo.

— Errado! Não podes não.

Gabriel alcançou um pequeno vaso de ouro junto a uma coluna e o entregou a Jailton.

— Faze de conta que criaste este lindo vaso. Agora existem no universo apenas tu e o vaso. Onde arrumaste material para fazê-lo?

Jailton não respondeu.

— Se criaste o vaso, agora já são tu e ele. E não és mais infinito, posto que em algum lugar deves terminar, para que ele comece.

— Mas o vaso pode ser parte do meu infinito agora, não pode?

— Tu acabas de estender o infinito, Jailton, para que nele caiba um vaso. Mas infinitos, por definição, não podem ser esticados, aumentados, estendidos. Para qualquer coisa que queiras criar, terás que aumentar o que não pode ser aumentado.

— Logo não se pode criar nada em se tratando de infinitos — admitiu Jailton. Até aqui estou com você. E depois?

— Depois nada. Eu só acabei de mostrar a ti, um deus, que existe uma coisa que não podes fazer. Não podes criar. A menos que admitas não ser infinito. Mas aí não serás mais um deus. Ou então enfias a viola no saco e aceitas que não és onipotente, com o mesmo resultado. Segues infinito, onipresente, mas sem o poder absoluto.

Azazel, até então calado em seu canto, ruge:

— Ele mente! Nem mesmo tua humana lógica é tão rasa! De onde achas que veio tudo o que vês? Olha! — E de um golpe Azazel produziu, do nada, um vaso igual ao que estava na mão do humano.

— Ô Belzebu! Tá pensando o quê? Você não vale. Você não é onipresente, nem infinito, nem coisa nenhuma. Então ainda fico com que o Gabriel aqui falou.

— É, Jailton. Mas o Azazel disse uma coisa que te dá o que pensar, não é? De onde veio tudo o que vês? Da tua unha à estrela mais distante? Mas continuemos...

Gabriel levantou-se e voltou a caminhar.

— Agora abandona o verbo criar. Troca-o por transformar e faze agora teu vaso de ouro.

— Perai. Deixa ver se entendi. Eu não crio, mas modifico. Pego alguma coisa que já existe...

— ...e que só pode ser parte de ti mesmo, pois só tu existes...

— ...e transformo essa parte de mim mesmo num vaso...

— ...e nada de ti se perde, porque não podes tirar do infinito um naco.

— Cara! Isso está bem melhor — voltou-se para Azazel — Olha aí, Azazel... se você me ensinar como fazer aquele teu truque, posso virar um deus...

Gabriel interpôs-se disfarçadamente entre o Caído e o mortal, num movimento protetor. Jailton não percebera ainda a gravidade da situação em que se encontrava. Provocar assim Azazel poderia precipitar as coisas, e o anjo ainda tinha muito que fazer. O confronto viria, mas não agora.

— Nunca serás um deus, Jailton. Não podes ser as três coisas. Onipresente, onipotente, onisciente. Os atributos do Deus sonhado pelos mortais.

Gabriel ergueu-se.

— Se não podes entender a verdadeira natureza do que chamas Deus, ao menos não abrigues crenças erradas sobre Ele. Perguntaste se tenho um chefe. Tenho. Ele garante que a Lei seja cumprida, mas não é a Lei. Pensa nisso, e quando chegar a hora, nada de mal advirá.

— Agora prepara-te. É hora de partir.

Acima da mesa, a caneta de Azazel alonga-se e se transforma. Uma espada tão bela e fulgurante quanto a do anjo surge em seu lugar. Antes que Gabriel possa dar-se conta, o Caído a empunha. Nenhum mal podia fazer ao anjo. Nem Gabriel a ele. Mas o mortal...

Azazel precisava antecipar seu plano. Libertar agora Jailton do esquecimento que escondia o segredo do Gênesis. Não deixaria que se fosse assim, sob a proteção de Gabriel, e com tempo para pensar, aprender e pôr a tudo a perder. Investira muito naquela operação.

As luzes se encontraram sobre a cabeça de um paralisado Jailton. Gabriel, distraído com o mortal por quem se afeiçoara, permitira o impasse. Azazel sustentaria aquele equilíbrio por séculos. Não tinha pressa. Aquele cuja vontade oscilasse primeiro cederia ao intento do outro. E Azazel tinha menos a perder. Um anjo protegia seu investimento. O outro, o trabalho de toda uma eternidade.

Nem os contendores podem dizer quanto tempo se passou até que Azazel vacilou. Sutilmente, como o sopro de uma brisa quente, o ar trouxe a única coisa à qual sua natureza não podia resistir. Luxúria como Azazel nunca sentira. Uma brisa afrodisíaca que transcendia tudo o que o Caído jamais criara na ilusão de suas loucas bacanais.

A face de Azazel contorceu-se, refletindo o esforço entre manter o embate e buscar a origem de sua libertina tortura. Por fim sua natureza venceu. Seus olhos desviaram-se para as sombras atrás de Jailton. Rápido, Gabriel preencheu a lacuna de vontade deixada pelo Caido e colocou Jailton fora do seu alcance.

Em vão Azazel buscou a fonte de sua derrota. Urrando, cruzou a dobra do tempo mais próxima e atirou-se-se no espaço. Mas o plano não estava de todo perdido. A sorte estava lançada.

Gabriel inclinou-se sobre Jailton. O mortal, saindo do transe, pôs-se de pé com rapidez. “Um legítimo mortal classe seis — pensa Gabriel — Leonardo escolheu bem”

Depois Gabriel dirigiu-se à penumbra para além do postigo, para onde apontara, angustiado e prenhe de desejo, o último olhar de Azazel. Jailton seguiu-o. Não queria estar sozinho caso aquele maníaco aparecesse outra vez.

O anjo perscrutou a escuridão, onde um reflexo branco jazia no chão. Gabriel abaixou-se, recolhendo-o. Uma pena.

— Minha anja... — murmurou.

Jailton, fungando, aproximou dela seu nariz.

— Cara, isso tem um cheiro louco!

A resposta de Gabriel vem entredentes, olhos fuzilando:

— Se começar a ter idéias eu esqueço quem sou e espalho tua alma, quanta por quanta, daqui até o fim do universo!

Dizendo isso devolveu Jailton ao lugar de onde viera, sem ao menos dizer adeus.

-oOo-

Sentada na relva, recostada na arvore, ela sentia suas asas umidecerem-se em contato com o tronco recoberto de verde. Gabriel, a cabeça em seu colo, sorvia o perfume de suas penas misturado ao cheiro terroso, primitivo do musgo, numa inebriante combinação.

— Nasci aqui — sussurrou ele — no começo dos tempos. Estou preso ao Paraíso, sou parte dele. E sentia uma falta vaga, indefinida, saudade de coisas que não vivi, dores que não senti... até você aparecer. Sempre quis te falar disso, mas eu mesmo não entendo...

Maria Celeste baixou os olhos para o marido devagar. Os lábios premidos entreabriram-se, a língua perpassando-os num prelúdio de promessa.

“Descansa, anjo meu” — pensou ela — “a Terra que há em mim é o bastante para nós dois.”

E arriscando sua alma imortal, Gabriel violou a Primeira Lei: amou aquela mulher sobre todas as coisas.


Imagem: Angel stretching, de Anita Klein
www.birchamgallery.co.uk

udi
em 14/3/2007

ai! estava tão ansiosa por esta parte e só vou poder ler mais tarde... :(



Anne M. Moor
em 14/3/2007

Como alguém já disse: Oh my God!!!! Kd o resto?????????



Ernesto Dias Jr.
em 14/3/2007

Udi:

Poisé.. eu sei... esse capítulo não demorei pra escrever. Demorei foi pra enxugar. Ficou comprido, né? Paciência. Esse anjo é que fala demais.

Anne:

Graças ao Homem não é mais comigo. Ufa! Faço minhas as tuas palavras, rsrs



Anônimo
em 14/3/2007

Ernesto:
Que coisa linda!
Tão criativa e intensa .Tão catalizadora e poética.
Tão...tão...
Lú.



Udi
em 14/3/2007

Uau! Valeu a pena esperar, longo mas muuuito fluente... remete a milhares de viagens: Star Wars, Matrix... mas "espalhar a alma, quanta por quanta, até o fim do universo" é especialmente único!



Flavio Ferrari
em 14/3/2007

Brilhante, meu caro companheiro de escrita.
Creio que não conseguirei evitar a frustração de seus leitores no último capítulo.
Mas vou dar o melhor de mim para, pelo menos, surpreender.
Estou aqui calculando quantas cervejas serão necessárias para a elevação do espírito...



Ernesto Dias Jr.
em 14/3/2007

Flavio:

Não te preocupes. NOSSOS leitores jamais frustar-se-iam com qualquer escrito teu.
E obrigado por ter-me emprestado o Jailton. Espero não tê-lo maltratado.
(Cacete... preciso exorcisar o porra do Gabriel e essa segunda pessoa)




 




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