Publicado em
21/1/2010
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Legítima Defesa
©2008 Ernesto Dias Jr.
A primeira parte desta estória está postada no Arguta Café — não vá ler fora de ordem... Como disse Truffault, espero que vocês se divirtam tanto lendo quanto Flavio e eu vamos nos divertir escrevendo...
Parte 2 - Tocaia
Por trás de todo talentoso existe um vício. O vício do talentoso pelo que o talentoso faz. É seu mister, seu sacerdócio, sua especialidade.
Tibúrcio Guararema -- Guará para os amigos – exibia especial talento para a vigilância.
Ainda menino instalou uma tábua no forro sobre o banheiro de casa para espiar as primas através das frestas do madeirame. Subia na goiabeira até o buraco do alçapão que abria para o quintal pouco antes da tia mandar as meninas tomarem banho, engatinhava até o esconderijo e lá ficava, deitado sobre a barriga. Vigiando.
Com o tempo a instalação foi sendo aperfeiçoada. Forro de espuma. Um caixote com prateleiras para guardar o cigarro, os fósforos, a lata de goiabada à guisa de cinzeiro, uma garrafa de refrigerante e o espaço reservado para revistinhas de sacanagem.
Seus métodos também ganharam em refinamento. Aprendera a mover-se silenciosamente, distribuindo o peso como um felino. Durante a vigília mudava de posição com movimentos precisos e diminutos, imperceptíveis, mas que evitavam dores nos músculos e formigamento nas extremidades. Até a respiração educou. Quando fazia o que todo menino faz ao espiar clandestinamente a própria tia pelada, ofegava em silêncio.
Quando seu tio foi morto pela polícia durante um assalto ao banco Moreira Salles o então já moço Tibúrcio seguiu seu caminho. Mas a vocação já se instalara.
Em pouco tempo sua reputação se espalhou pela zona cinzenta da sociedade habitada por potenciais clientes. Eventualmente Guará tornou-se um profissional bem sucedido e, pelos padrões do seu estrato social, rico.
-oOo-
Naquela manhã um Guará já aposentado aceitara uma nova missão depois de muita insistência do Kalil, um velho amigo e ex-cliente.
-- Guará, meu chapa, você tem que fazer o serviço. Coisa boba, uma garota. Dinheiro não é problema. Mas eu prometi indicar o melhor.
-- Assunto de chifrudo?
-- Não. Coisa fina. Você vai entregar o relatório direto para o manda-chuva.
-- Que é quem?
Kalil hesitou. Mas sabia que Tibúrcio Guararema não quebraria sua regra de ouro: nunca trabalhar sem saber para quem. Baixou a voz.
-- O Benedetto.
Guará treinara durante anos para levantar apenas uma das sobrancelhas. A esquerda para transmitir dúvida, a direita para surpresa. Ergueu a esquerda.
-- Aquele Benedetto?
-- Aquele.
O orgulho profissional de Guará fora aguçado. Prestara serviços para lendas – vivas e mortas – do mercado. Mas nenhuma mais lendária que Benedetto. No panteão dos seus clientes mais impressionantes faltava uma figura. Faltava o Benedetto.
-- É o mesmo que trabalhar às cegas. Ninguém sabe quem ele é.
-- E quem sabe já morreu.
Guará deu-se por vencido, mas não ia deixar barato.
-- Cinco paus por dia mais despesas.
-- Posso tirar minha comissão?
-- Não. Fique com o que conseguir a mais com o pessoal do Benedetto. Agora me dá o serviço.
Kalil tirou do bolso um envelope e entregou ao amigo.
-oOo-
O velho cargueiro esperava na entrada do canal a lancha do prático que o levaria até o cais 17 a salvo dos escolhos. Além das silhuetas do capitão e do piloto na ponte, nenhum tripulante podia ser visto.
A exceção era o homem que fumava calmamente, de pé no castelo de proa. Quem o visse poderia afirmar não tratar-se, claramente, de um marinheiro. O terno, podia-se ver, era elegante e muito bem cortado. O chapéu de feltro e o tamanho do salto eram propositais: faziam-no parecer mais alto do que realmente era. E havia ainda o ouro. Nos anéis, nas abotoaduras, no clipe da gravata, na cigarreira. O lenço cuidadosamente dobrado no bolso do paletó e a gravata levavam a marca Hermés, mas não podiam ser comprados em qualquer loja da grife. Eram desenhados especialmente por Jean-Paul Gautier para um cliente específico.
Nada, contudo, impressionava mais que o paradoxo do seu semblante. O rosto perfeito, de beleza quase feminina não conseguia esconder a malevolência que irradiava dos olhos escuros. Nem o sarcasmo expresso pela boca.
Lançou ao mar o cigarro ao ouvir o discreto toque do celular, um iPhone no qual todas as peças metálicas tinham o aço substituído por ouro.
-- Mandei me chamar só depois que ela saísse.
A frase foi dita por uma voz que não admitia contestação. Seu interlocutor, contudo, não perecia deixar-se intimidar.
-- É exatamente o que estou fazendo.
-- Tão rápido? O tal Polansky não está?
-- O carro dele ainda está estacionado aqui em baixo.
-- E o envelope?
-- Sumiu. Provavelmente destinava-se a ele.
-- E tem certeza de que ela não carregava nada mais, alguma coisa mais... volumosa?
-- Já disse. Ela está com uma daquelas bolsas pequenas e caras, de correntinha. Mal cabe um celular.
-- Então na roupa.
-- Está brincando? Se ela esconder um post-it debaixo daquele vestido vai ficar parecendo uma lista telefônica.
-- Ela vai ter que aparecer com o que estou procurando. Cedo ou tarde. Não desgrude dela.
Desligou o telefone sem esperar resposta e acendeu outro cigarro.
-- Estou chegando – murmurou – estou chegando, minha cara.
Imagem: Keyhole, de Chatnoir
http://chatnoir77.deviantart.com/
Flavio Ferrari
em 21/1/2010
Anne
em 21/1/2010
António Tapadinhas
em 21/1/2010
Fico sentado, salivando, à espera da pièce de résistance...
Abraço,
António
Carla P.S.
em 21/1/2010
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