Publicado em
28/1/2010
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Legítima defesa - Parte 4
©2008 Ernesto Dias Jr.
Capítulo 1 - Prolegômenos
Capítulo 2 - Tocaia
Capítulo 3 - Papel Kraft
Femme fatale
Chovia torrencialmente quando o agente da Polícia Federal desceu a escada do navio. O homem estava aliviado. Examinara perfunctoriamente os passaportes da tripulação, vinte ao todo, que lhe apresentara o capitão. Depois examinara os porões através das escotilhas do convés, abertas para inspeção. Nenhuma carga. Apenas lastro e, por isso, nenhum manifesto, o que ajudara bastante a encurtar a visita. Detestara aquele navio velho e mal cuidado, cheirando a óleo diesel misturado com incontáveis restos de cargas a granel apodrecidas sabe Deus desde quando.
Segundo o capitão, um cipriota baixote de inglês estropiado e necessitando urgentemente de um banho, o Lone Star aportara apenas para alguns reparos na casa de máquinas.
Foi só depois que escureceu um grande Volvo preto aproximou-se do costado silenciosamente. Antes que o motorista desligasse o motor o homem já descia a escada, protegido da chuva apenas por um sobretudo inglês e um chapéu. Carregava a própria bagagem. O motorista correu a tomar-lhe a mala e abrir a porta. Nem sequer fez menção de tocar na attaché. Sabia que o patrão jamais se separava dela. Depositou cuidadosamente a luxuosa Longchamp no porta-malas, instalou-se ao volante e partiu.
Ao chegar ao enorme portão de ferro que separava o porto do resto da cidade não estacionou para submeter-se – e ao seu passageiro – à inspeção da alfândega e da imigração. Em vez disso baixou o vidro dois dedos para entregar ao oficial a segunda metade da propina já combinada e arrancou, desaparecendo no tráfego.
-oOo-
Para Enrico Spadaro Scaccabarozzi, o Benedetto, o trajeto pelas ruas e avenidas da cidade tinham o gosto de uma apoteótica parada, o cortejo de um rei que retoma seu trono, um general que reconquista sua capital, um herói que retorna gloriosamente.
O seu maior trunfo, contudo, era exatamente o oposto. A furtividade. Voltava como uma serpente esgueirando-se pela fresta de uma cerca. Silencioso. Anônimo. Perigoso.
Abriu a pasta e dela retirou o velho recorte de jornal. Aproximando dos olhos a fotografia que ilustrava a matéria, examinou por longo tempo a figura de uma das dez pessoas retratadas.
A única cujo rosto se podia ver, porque não estava riscado de vermelho.
-- Chegou a hora – pensou. O circulo se fecha. Mas antes...
Seu rosto endureceu. Rilhou os dentes.
-- Mas antes tenho que desarmar aquela vagabunda.
-oOo-
Tibúrcio entregou a chave ao frentista e atravessou correndo o largo pátio que separava as bombas do Seven Eleven. Localizou o caixa automático no canto da loja e sacou um extrato. Dez mil a mais. Ótimo. Pagamento diário como haviam combinado. Cinco pelo serviço e mais cinco adiantados para despesas. Era ótimo trabalhar com profissionais.
O frentista ensaboava os vidros do carro apesar da chuva. Ia ter que dar gorjeta. Deu de ombros e pediu um café. Nem bem dera o primeiro gole quando o telefone vibrou.
Era o Kalil.
-- Guará? É você?
-- Não. É a sua mãe. Você ligou para quem, seu estúpido?
-- Guará, você ainda está com... com a moça?
-- Não. Ela parou no mercado a caminho de casa e eu aproveitei para pregar um rastreador no TR4 dela. Está em casa dormindo agora. Se sair de novo eu saberei. Porquê?
Tibúrcio podia ouvir a respiração do amigo através do celular. Estava ofegante.
-- Tirou fotos?
-- Claro. Ainda estão no carro, mas afinal...
-- Você tem que largar o caso. Agora.
-- Ficou maluco? Foi você mesmo que me meteu nessa. E até já depositou minha parte, não foi?
-- Pois eu cometi um erro. Dos grandes.
-- Erro? Do que é que você está falando, homem?
-- Andei fazendo umas perguntas por aí. Estamos tratando com gente perigosa. Muito perigosa e...
Tibúrcio cortou o amigo com rispidez.
-- Ora Kalil... espera...
O frentista estava acenando. Fez um gesto em direção à frente da loja. Queria agradar manobrando o carro até o Seven Eleven para que o freguês não se molhasse mais do que já estava. Mais gorjeta.
Tibúrcio fez um sinal de positivo e aproximou de novo o celular do ouvido.
-- É claro que o Benedetto não é flor que se cheire, Kalil. Mas nunca ouvi dizer que é um risco para quem trabalha para ele.
Um idiota parara uma SUV em frente à bomba impedindo a passagem, obrigando o frentista a dar a volta pela rua. O sinal fechou. Um caminhão entrou no posto ocultando de Tibúrcio a visão do próprio carro.
-- Quem está falando do Benedetto? É a moça ! Fique longe da moça!
Verde. Com um golpe rápido de volante o frentista retorna ao posto pela rua lateral. Aponta com cuidado para a vaga mais seca, debaixo da marquise.
-- Da moça? Kalil, é melhor a gente se encontrar para você me explicar isso direito.
Com a atenção no carro Tibúrcio não viu as motocicletas se aproximarem. Uma de cada lado. Do lado direito o motociclista estoura o vidro, destrava a porta, abre e arranca do porta-luvas a pequena Canon.
--Ei! Ei você!
Tibúrcio dá três passos e congela.
Do lado esquerdo o comparsa saca do bolso do blusão um revolver, aponta para a janela do motorista e dispara seis vezes.
Foto: Corpo, por Paulo Zumbi (http://br.olhares.com/paulozumbifotos)
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24/1/2010
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Acertando os ponteiros
©2008 Ernesto Dias Jr.
Notinha 1:
Esta postagem aparentemente sem sentido eu fiz por prometida ao Flávio e ao Ortega. Surgiu de uma discussão em plena rua na qual o Ortega filosofava sobre relógios quebrados quando Flavio, segurando sua garrafinha térmica azul com chá de lírio, saiu-se com isso:
-- Bem, um relógio parado mostra a hora certa pelo menos duas vezes por dia...
Rimos do modo peculiar como o Flávio, como de hábito, espremeu uma tirada esperta de onde não parecia haver nada interessante.
Mas eu fiquei pensando e, como de (péssimo) hábito, perguntando porquê.
Então eu disse:
-- Na verdade qualquer relógio defeituoso, que atrase ou adiante, mostra a hora certa pelo menos duas vezes por dia.
Protestos. O Ortega chegou a fazer umas contas de cabeça e afirmar que o tempo que um relógio atrasado leva para cruzar com a hora certa dependeria da quantidade do atraso.
Daí prometi postar alguma coisa a respeito.
-oOo-
Bob e Wow são duas lesmas atletas. Disputam corridas em uma pista circular. Bob é regular como um relógio: crava uma volta em 12 horas, invariavelmente. Wow, além de não ser tão bom ainda sofre de narcolepsia: ele pega no sono em plena competição e fica lá, parado enquanto Bob passa por ele volta após volta (na última 500 polegadas de Yorkshire Bob passou por Wow exatas 625 vezes enquanto este dormia).
Wow detesta ser ultrapassado pelo regularíssimo Bob, mas sabe que não há nada que possa fazer se não for tão rápido quanto seu adversário.
Houve uma temporada na qual Wow estava particularmente preparado: a bagatela de apenas 1 milésimo de segundo por volta mais lerdo que Bob. Ainda assim o drama se repetia: Bob o ultrapassava impiedosamente a cada volta. Duas vezes ao dia.
Há outra maneira, menos elegante, de expressar o que acontece entre Bob e Wow, usando o seguinte enunciado:
Dois sistemas periódicos estarão em sincronismo pelo menos uma vez a cada ciclo, independentemente da razão entre suas frequências , sendo a razão representada por qualquer número real.
É importante reforçar essa coisa de número real, por que inclui também o infinito (quando Wow pega no sono) e a (improvável, coitado) possibilidade de Wow correr mais rapidamente que Bob (W:B > 0).
A representação gráfica do fenômeno então fica:



Notinha 2:
Não esperava mais usar os nomes de Bob e Wow. São usados para nomear peças em uma amostra após uma análise de qualidade. Bob é Best of the Best e Wow é, coitado, Worst of the Worst.
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| Lú. | Ernesto Dias Jr. | Flavio Ferrari | Ernesto Dias Jr. | Ortega |
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21/1/2010
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Legítima Defesa
©2008 Ernesto Dias Jr.
A primeira parte desta estória está postada no Arguta Café — não vá ler fora de ordem... Como disse Truffault, espero que vocês se divirtam tanto lendo quanto Flavio e eu vamos nos divertir escrevendo...
Parte 2 - Tocaia
Por trás de todo talentoso existe um vício. O vício do talentoso pelo que o talentoso faz. É seu mister, seu sacerdócio, sua especialidade.
Tibúrcio Guararema -- Guará para os amigos – exibia especial talento para a vigilância.
Ainda menino instalou uma tábua no forro sobre o banheiro de casa para espiar as primas através das frestas do madeirame. Subia na goiabeira até o buraco do alçapão que abria para o quintal pouco antes da tia mandar as meninas tomarem banho, engatinhava até o esconderijo e lá ficava, deitado sobre a barriga. Vigiando.
Com o tempo a instalação foi sendo aperfeiçoada. Forro de espuma. Um caixote com prateleiras para guardar o cigarro, os fósforos, a lata de goiabada à guisa de cinzeiro, uma garrafa de refrigerante e o espaço reservado para revistinhas de sacanagem.
Seus métodos também ganharam em refinamento. Aprendera a mover-se silenciosamente, distribuindo o peso como um felino. Durante a vigília mudava de posição com movimentos precisos e diminutos, imperceptíveis, mas que evitavam dores nos músculos e formigamento nas extremidades. Até a respiração educou. Quando fazia o que todo menino faz ao espiar clandestinamente a própria tia pelada, ofegava em silêncio.
Quando seu tio foi morto pela polícia durante um assalto ao banco Moreira Salles o então já moço Tibúrcio seguiu seu caminho. Mas a vocação já se instalara.
Em pouco tempo sua reputação se espalhou pela zona cinzenta da sociedade habitada por potenciais clientes. Eventualmente Guará tornou-se um profissional bem sucedido e, pelos padrões do seu estrato social, rico.
-oOo-
Naquela manhã um Guará já aposentado aceitara uma nova missão depois de muita insistência do Kalil, um velho amigo e ex-cliente.
-- Guará, meu chapa, você tem que fazer o serviço. Coisa boba, uma garota. Dinheiro não é problema. Mas eu prometi indicar o melhor.
-- Assunto de chifrudo?
-- Não. Coisa fina. Você vai entregar o relatório direto para o manda-chuva.
-- Que é quem?
Kalil hesitou. Mas sabia que Tibúrcio Guararema não quebraria sua regra de ouro: nunca trabalhar sem saber para quem. Baixou a voz.
-- O Benedetto.
Guará treinara durante anos para levantar apenas uma das sobrancelhas. A esquerda para transmitir dúvida, a direita para surpresa. Ergueu a esquerda.
-- Aquele Benedetto?
-- Aquele.
O orgulho profissional de Guará fora aguçado. Prestara serviços para lendas – vivas e mortas – do mercado. Mas nenhuma mais lendária que Benedetto. No panteão dos seus clientes mais impressionantes faltava uma figura. Faltava o Benedetto.
-- É o mesmo que trabalhar às cegas. Ninguém sabe quem ele é.
-- E quem sabe já morreu.
Guará deu-se por vencido, mas não ia deixar barato.
-- Cinco paus por dia mais despesas.
-- Posso tirar minha comissão?
-- Não. Fique com o que conseguir a mais com o pessoal do Benedetto. Agora me dá o serviço.
Kalil tirou do bolso um envelope e entregou ao amigo.
-oOo-
O velho cargueiro esperava na entrada do canal a lancha do prático que o levaria até o cais 17 a salvo dos escolhos. Além das silhuetas do capitão e do piloto na ponte, nenhum tripulante podia ser visto.
A exceção era o homem que fumava calmamente, de pé no castelo de proa. Quem o visse poderia afirmar não tratar-se, claramente, de um marinheiro. O terno, podia-se ver, era elegante e muito bem cortado. O chapéu de feltro e o tamanho do salto eram propositais: faziam-no parecer mais alto do que realmente era. E havia ainda o ouro. Nos anéis, nas abotoaduras, no clipe da gravata, na cigarreira. O lenço cuidadosamente dobrado no bolso do paletó e a gravata levavam a marca Hermés, mas não podiam ser comprados em qualquer loja da grife. Eram desenhados especialmente por Jean-Paul Gautier para um cliente específico.
Nada, contudo, impressionava mais que o paradoxo do seu semblante. O rosto perfeito, de beleza quase feminina não conseguia esconder a malevolência que irradiava dos olhos escuros. Nem o sarcasmo expresso pela boca.
Lançou ao mar o cigarro ao ouvir o discreto toque do celular, um iPhone no qual todas as peças metálicas tinham o aço substituído por ouro.
-- Mandei me chamar só depois que ela saísse.
A frase foi dita por uma voz que não admitia contestação. Seu interlocutor, contudo, não perecia deixar-se intimidar.
-- É exatamente o que estou fazendo.
-- Tão rápido? O tal Polansky não está?
-- O carro dele ainda está estacionado aqui em baixo.
-- E o envelope?
-- Sumiu. Provavelmente destinava-se a ele.
-- E tem certeza de que ela não carregava nada mais, alguma coisa mais... volumosa?
-- Já disse. Ela está com uma daquelas bolsas pequenas e caras, de correntinha. Mal cabe um celular.
-- Então na roupa.
-- Está brincando? Se ela esconder um post-it debaixo daquele vestido vai ficar parecendo uma lista telefônica.
-- Ela vai ter que aparecer com o que estou procurando. Cedo ou tarde. Não desgrude dela.
Desligou o telefone sem esperar resposta e acendeu outro cigarro.
-- Estou chegando – murmurou – estou chegando, minha cara.
Imagem: Keyhole, de Chatnoir
http://chatnoir77.deviantart.com/
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11/1/2010
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O terror ataca de novo
©2008 Ernesto Dias Jr.
Pelo menos o tal 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) serviu para alguma coisa. Fez com a revista Veja (pasmemos) tratasse Paulo Vanucchi, Franklin Martins et caterva pelo que realmente são: ex-terroristas. Dar nome aos bois é um bom começo.
Quanto ao tal plano em si, que Lula disse ter assinado sem ler, é um amontoado de besteiras a ocultar, entremeados em seu bojo, assustadores atentados à democracia e à liberdade. Além, é claro, de mais uma vez mais mentir a respeito do passado.
E não faltaram igualmente as disposições de praxe para que se espremam ainda mais as tetas da viúva para saciar as ávidas goelas da esquerdalha brasileira por dinheiro.
É preciso lutar que essa excrescência não passe.
Pena que no meio de tanta bandalheira de inspiração bolivariana exista meia dúzia de requisições justas que acabam se perdendo.
Se você tiver saco de ler, o lixo integral pode ser baixado daqui.
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| Flavio Ferrari | Anne | António Tapadinhas | Flavio Ferrari |
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29/10/2009
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Jovens do século 21
©2008 Ernesto Dias Jr.
As imagens são bizarras: uma multidão berrando: puta! puta! Protegida pela polícia, uma moça vestindo uma simples minissaia percorre um corredor polonês de jovens ensandecidos que querem linchá-la. Ou estrupá-la, sabe-se lá.
A cena aconteceu num país islâmico? Não. Foi na semana passada em São Bernardo do Campo, dentro de uma universidade: a Uniban. As aulas foram suspensas enquanto a turba - centenas de "estudantes" - promovia a baderna.
As imagens estão aqui.
Essa geração precisa tirar o nariz do Tweeter e começar a viver de verdade. No meu tempo (exatamente quando a minissaia foi criada), a moça seria disputada a tapa. Com todo o respeito. Estamos criando malucos demais.
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©2008 Ernesto Dias Jr.
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22/8/2009
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2/7/2009
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2/7/2009
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